terça-feira, 15 de setembro de 2009

O autógrafo do Chico – Cap.2: disco na mão


Em 1979 eu sonhava trabalhar em uma loja de discos. Passar o dia inteiro ouvindo música e do jeito que gostava de ouvir: bem alta, em caixas acústicas enormes, que jogassem o som na calçada do outro lado da rua.

Depois de alguns meses trabalhando no jornal apenas em funções externas, começaram a confiar a mim também serviços internos. Entre eles estava a produção de calhaus. Se você não sabe, calhaus são (ou eram) notícias ou artigos que servem (ou serviam) para preencher os espaços que aparecem nas edições dos jornais pela falta de material editorial ou por falha no cálculo da diagramação. Para produzir esse material, eu folheava todo dia os jornais Estadão e Folha, escolhia algumas matérias genéricas e de característica não datada, resumia o conteúdo e mudava o título das mesmas, datilografava tudo em laudas e guardava na minha gaveta. Quando o diagramador constatava os buracos, ele me dizia o tamanho dos calhaus que precisava e eu escolhia na gaveta os que entrariam.
Também reescrevia a seção de horóscopo. Isso mesmo, se a astróloga do jornal não mandava os textos em tempo, se ela saia em férias, eu fazia um omelete com coisas antigas dela, inventava novas situações, criava novas previsões sempre positivas, dicas de sorte e pronto, publique-se. Ou seja, aos 15 anos de idade eu acumulava as funções de office-boy, copy desk e astrólogo.


“Bijuterias”, de João Bosco e Aldir Blanc, foi a música-tema de abertura da novela “O Astro”, levada ao ar na TV Globo exatamente na época em que essa história acontece. A letra começa falada: "Em setembro, se Vênus me ajudar, virá alguém. Eu sou de virgem e só de imaginar me dá vertigem". A propósito, eu sou de virgem.

Para as tarefas internas eu tinha a minha mesa. Sobre ela, além de um telefone daqueles ainda de discar, havia um outro companheiro inseparável que já mencionei aqui: o rádio de pilha. Exato, eu tinha um rádio de pilha no meu trabalho, que na verdade não era meu, mas que eu considerava como tal, pois só eu mexia nele, onde ouvia a rádio Difusora AM quase o dia todo. Numa época em que ainda não existia FM, era nessa emissora AM que eu tomava contato com os grandes lançamentos da MPB. Tinha um programa que eu não perdia de jeito nenhum, que dava discos a quem ligasse para lá e acertasse uma determinada pergunta. Não lembro o nome do programa, mas nunca mais esqueci o número do telefone: 62-9834, tantas vezes disquei para lá. Desse programa, ganhei vários LPs que até hoje estão comigo. A coisa funcionava assim: eles recebiam semanalmente no estúdio algum artista que estava lançando um disco ou show. Aí, lá no meio da entrevista, o locutor fazia uma pergunta relacionada ao artista e sua obra. Os 10, 15 ou 5 primeiros ouvintes que conseguissem ligar e acertar a resposta, iam lá depois na sede da rádio pegar o prêmio, que era sempre um LP daquele artista. A sede da Difusora de São Paulo ficava no Alto do Sumaré, no mesmo prédio da antiga TV Tupi, onde depois se instalou a MTV (nota de atualização: hoje, é a sede da ESPN). Eu costumava ser ligeiro na ligação e quase sempre certeiro nas respostas. Na verdade, eu tinha uma estratégia. Assim que o locutor iniciava a pergunta eu já começava a discar. Ficava segurando o último número, o 4, que soltava só quando a pergunta era toda formulada. Muitas vezes eu era atendido de cara, em outras a linha só dava sinal de ocupado, tamanha a quantidade de gente que fazia a mesma coisa no mesmo momento. Fui na Difusora uma porção de vezes, onde recebi discos do Ivan Lins, João Nogueira, Milton Nascimento, entre outros. Até um do Raul Seixas autografado pelo próprio eu ganhei. Na rádio já me conheciam. A atendente me disse certo dia que eles brincavam que um dos LPs tinha que ser separado “praquele menino”.


O filme “Alta Fidelidade”, de onde essa cena hilária com o ótimo Jack Black foi tirada, não é uma inspiração para esse blog. Mas poderia ser. A história retrata com muito charme e bom humor passagens da vida do dono de uma loja de discos raros de vinil num subúrbio inglês. O papel principal é vivido pelo também ótimo ator John Cusack, e a trilha sonora é de primeiríssima.

Voltando aos pequenos delitos dessa fase - cuja origem abordei no post anterior - depois de aprender que não era tão difícil conseguir uma verba extra, não parei mais. Os mais leves consistiam em embolsar o dinheiro do táxi e fazer o serviço de ônibus, ou embolsar a grana do ônibus e fazer o serviço a pé, ou então pedir para o cobrador pra descer pela porta de trás porque eu tinha “pegado o ônibus errado”. Nos delitos mais complexos, eu pagava uma despesa e pedia uma nota com valor maior. Não muito maior, para não levantar suspeitas. De grão em grão, eu finalmente consegui juntar o valor total para entrar naquela loja de discos da rua ao lado. Fiz isso numa manhã fria, antes de pegar no batente. Os funcionários da loja ainda estavam subindo as portas de ferro e havia um aroma de café de boteco no ar. Foi a primeira vez na vida que entrei numa loja de discos para comprar. Entrei certo de que os atendentes esperavam que eu pedisse alguma coletânea da K-Tel.

Nos anos 1970, o selo K-Tel desbancava a Som Livre em vendas, editando intermináveis coletâneas de sucessos internacionais. Eram lançamentos que aconteciam simultaneamente em vários países, havia apenas o cuidado de adaptar o repertório à parada local. Os discos tinham muitas faixas, que eram praticamente espremidas umas nas outras. Mal a música anterior acabava, já começava a próxima.

Não, eu pedi mesmo foi "o último do Chico", que naquela época lançava um disco por ano. Eles me trouxeram o dito. Novinho, tinindo, o acetato impecável, completamente virgem de agulhas. A foto do Chico sorridente em frente a um cacho de samambaias era o que havia então de mais descolado para um artista já consagrado como ele. Paguei e saí de lá ansioso por ouvir todas aquelas músicas que eu já conhecia de cor de tanto ouvir na Difusora, mas que agora eram minhas. O álibi para chegar em casa à noite, depois da aula, com aquele LP debaixo do braço, comprado sabe-se lá com que dinheiro, eu já tinha. Claro, aquele haveria de ser mais um disco que ganhei por acertar uma pergunta blábláblá... Não. Dessa vez, eu queria algo diferente. Pois esse algo diferente veio de um fato ocorrido no tempo em que eu estudava no 4º ano primário, quando descobri um problema crônico que me acompanharia por todo o sempre: uma imensa aversão ao estudo da matemática. Como foi isso vou contar no próximo post.

Chico pediu à gravadora que encontrasse uma voz feminina desconhecida e de timbre suave, com a qual ele pudesse dialogar na belíssima "Pedaço de Mim", uma das faixas do disco de 1978. Foi assim que surgiu para a MPB a paulistana Zizi Possi

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O autógrafo do Chico – Cap.1: surge um malandro

Tenho até hoje esse LP do Chico Buarque autografado. Mas antes de contar como isso aconteceu, preciso relatar uma outra passagem. Uma que envolve a música de forma indireta, e que sem ela eu não teria conseguido comprar o disco.

Eu ainda era o office-boy do jornal A Gazeta da Zona Norte, em São Paulo. Tinha já completado 15 anos de idade, e continuava entregando meu pagamento integral em casa. A missão da família toda era juntar grana para darmos entrada em uma casa própria. Cada centavo que cada um de nós conseguia receber, servia para que meu pai juntasse uma grana e comprasse uma linha de telefone, que naquela época era um dos melhores investimentos que se podia fazer. Eu então sem um tostão no bolso, a não ser para alimentação e condução, nem considerava a possibilidade de comprar algo que gostasse, fosse o que fosse. Hoje isso seria muito complicado, num mundo em que o consumo é alimentado e realimentado constantemente. Mas naqueles idos a coisa era bem diferente, ainda mais para quem nasceu e foi criado dentro de uma realidade em que cada pequena conquista era uma grande vitória.

No final da década de 1970, as linhas telefônicas eram caríssimas e valorizavam rapidamente, ainda mais depois de instaladas, o que levava às vezes dois anos para acontecer. Se não me engano, meu pai chegou a juntar quatro linhas, que depois foram vendidas para que ele inteirasse o valor da entrada do sobrado em que ele e minha mãe moram até hoje. Sobre minha mesa, no jornal, havia um aparelho muito parecido com esse da foto acima. Mais adiante, esse telefone também vai entrar na história do autógrafo do Chico.

Era o início de 1979. A secretária do jornal e minha chefe imediata, a bela nissei Rosinha, mandou que eu fosse a uma fábrica no bairro da Casa Verde. Lá eu deveria procurar o operário Eduardo (que era diretor da escola de samba Império da Casa Verde), que me entregaria as letras dos sambas-enredo das agremiações da Zona Norte, para que o jornal publicasse na semana seguinte, véspera do Carnaval daquele ano. Chegando lá, fui com o Eduardo até uma sala com uma escrivaninha. Ele abriu a primeira gaveta e tirou de lá algumas folhas de sulfite, nelas estavam datilografadas as letras dos sambas das escolas da Zona Norte que iriam para a avenida naquele ano. O Eduardo me disse que eu deveria ir até uma copiadora ali perto e voltar para devolver a ele os originais. Peguei os papéis e fiquei olhando cabisbaixo praquilo, sem saber o que fazer. Ele percebeu a saia justa. “Você não tem dinheiro pra tirar xerox?”. Balancei a cabeça afirmativamente. “A firma só te deu o dinheiro contadinho pro ônibus?”. Balancei a cabeça afirmativamente de novo. Ele então tirou do bolso alguns cruzeiros (sim, cruzeiros) e me entregou: “Presta atenção, você vai atravessar a rua. pedir na papelaria que tirem uma cópia de cada folha e vai pagar com o meu dinheiro. Mas quero o recibo, entendeu?”. Fui e voltei com a nota. Foi quando o Eduardo me falou com a maior calma do mundo: “Presta atenção de novo: você vai levar esse recibo pra sua chefe e dizer que foi você que pagou a conta, entendeu?”. Entendi. “Como é seu nome mesmo? Então, vai lá, Marcelo. Isso é pra eles aprenderem. Não vai perder o recibo!”.

Por incrível que pareça, a Império da Casa Verde, uma das mais tradicionais escolas de samba de São Paulo, localizada no bairro de mesmo nome, não tem o verde como uma de suas cores. Diz a lenda que naquela região havia uma fazenda cuja sede era pintada de verde, daí o nome do bairro. O Eduardo, que naquele dia me deu as letras dos sambas-enredo e me apresentou à malandragem, era integrante da União das Escolas de Samba de São Paulo.

O trajeto do ônibus da Casa Verde para Santana pareceu muito mais longo, quase uma eternidade. Como eu ia fazer aquilo? Não, eu não ia conseguir, minha cara ia me entregar, não vou fazer, não vou enganar ninguém. Fui suando frio o caminho todo. Aqui, é preciso que eu abra um parêntese. Claro que eu não era um santo, mas a verdade é que aos 15 anos de idade eu ainda guardava uma essência de "bom menino" que vinha desde minha infância. Quando fiz a primeira comunhão, aos 6 anos de idade, caçula da turma, na hora de fazer a confissão para poder comungar eu não sabia o que dizer. Não lembrava de nada de errado que tivesse cometido. Por sorte, meu irmão mais velho que eu foi antes de mim e, na volta, passou perto. Eu estava apavorado, perguntei pra ele “o que é que eu digo lá?”. “Ah, diz que você xingou o pai e a mãe, bateu nas irmãs e jogou bola na vidraça do vizinho”. Foi assim que confessei pro padre os pecados do meu irmão.

"O malandro é um personagem muito simpático na nossa cultura e, mais do que isso, ele é uma espécie de herói do povo, na medida em que consegue levar a vida apesar de uma sociedade individualista e de instituições que não se preocupam em melhorar a vida das pessoas. “O malandro é o barão da ralé”, como versou Chico Buarque." (por Share This, no blog Estalo)

Eu estava decidido a não seguir a orientação do Eduardo e assim entrei no jornal. Mas cheguei tão atordoado que esqueci que segurava a nota e as letras dos sambas na mesma mão. A Rosinha foi ligeira e puxou a nota de mim: "vou acertar já isso com você". Eu gelei. Ela abriu a gaveta, tirou os trocados correspondentes ao valor da nota e me entregou. Eu fiquei sem ação. Olhei praquele dinheiro repousado na palma da minha mão e fui mudo para a minha mesa, sem quase respirar. Quando finalmente o oxigênio voltou a circular pelo meu cérebro, a primeira coisa que me veio à cabeça foi “nossa... como foi fácil!”. Naquele momento, eu definitivamente dava adeus à infância. Instantaneamente, engendrei um plano. Sempre que eu pudesse fazer novos pequenos delitos como aquele, iria guardar o fruto da contravenção só para mim, sem entregar em casa. De trocado em trocado, eu juntaria dinheiro pra comprar o que eu mais queria há meses. Um jeans? Um tênis? Uma camiseta? Não, meu sonho de consumo naquele inicio de 1979 era o novo disco do Chico Buarque! O LP tinha as músicas “Cálice” e “Apesar de Você”, finalmente liberadas pela censura, além de muitas outras que eu adorava e cantava de cor fazia tempo - graças ao rádio AM, meu companheiro inseparável. Mas havia um problema. Mesmo que eu conseguisse todo o dinheiro, como chegaria em casa com aquele disco, já que eu não tinha outra fonte de renda além do salário-mínimo que entregava todo para a família? A resposta para essa pergunta virá na sequência.
 
 

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O primeiro show - parte final

Elis Regina em um momento do show "Transversal do Tempo". Foto sem crédito

Conhecia muita coisa da Elis pelo que tocava no rádio. Nos anos de 1975 e 1976, ela tinha alcançado enorme sucesso com um show antológico, o “Falso Brilhante”. Considerado um dos maiores espetáculos já produzidos na música brasileira em todos os tempos, “Falso Brilhante” foi decisivo para que Elis fosse alçada à condição de melhor cantora que o país já teve. Tal título era, e ainda hoje é, corroborado por alguns dos nomes mais importantes da nossa música, da crítica especializada e por grande parte da opinião pública. Ela estava no auge de sua técnica vocal e expressividade artística. A união musical com o pianista e arranjador César Camargo Mariano (também seu marido à época, com quem teve os filhos Pedro Camargo Mariano e Maria Rita) foi co-responsável pela guinada que sua carreira teve nesse período.
Depois de “Falso Brilhante”, Elis estréia o show “Transversal do Tempo”. Era 1978. O Brasil, ainda sob as rédeas da repressão política patrocinada pelo regime militar, vivia um momento especialmente difícil. A atmosfera do espetáculo estava impregnada dessa tensão. A sonoridade tinha um peso que incomodava, provocava. Elis era uma voz que se levantava contra a ordem vigente no país. Sua interpretação para “Cartomante”, de Ivan Lins e Vitor Martins, é um retrato empolgante disso.



Este vídeo, assim como o do post anterior, onde Elis canta "Fascinação", é da apresentação do "Transversal do Tempo" em Lisboa. Um fato interessante, aliás, foi o "Transversal" iniciar com "Fascinação", que foi uma das principais músicas do repertório do show anterior, "Falso Brilhante". A sensação pretendida, imagino, era de um "falso-Falso Brilhante". Nesses vídeos da apresentação em Portugal ela aparece muito mais contida do que esteve quando a vi em São Paulo. Aliás, a Elis pulou tanto naquela noite que acabou torcendo o tornozelo e tendo que encurtar um pouco o show, o que fez pedindo desculpas ao público enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto. O público lamentou no primeiro instante, mas logo em seguida se levantou para um aplauso consagrador. Plateia, músicos e estrela permaneceram varios minutos aplaudindo-se mutuamente. Olhei para os lados e vi muita gente chorando.

Não tenho lembranças de antes do show. Nenhuma. O teatro era o TAIB, Teatro de Arte Israelita Brasileiro, no bairro Bom Retiro, em São Paulo. Talvez me recorde vagamente da aglomeração na frente do teatro, mas não tenho certeza. Porém, jamais me esquecerei de quando aquela mulher surgiu no palco. O roteiro e a direção do show eram de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, com direção musical de César Camargo Mariano. A banda era formada pelos ótimos César (teclados), Natan Marques (guitarra e violão), Crispim del Cistia (guitarra e teclados), Fernando Cisão (baixo) e Dudu Portes (bateria). Quando a banda começou a tocar e o canhão de luz iluminou Elis no centro eu me assustei com o tamanho dela. Aquela mulher parecia enorme. O efeito da luz, a magia do palco, a altura do som, minha primeira vez numa platéia, tudo ajudava a criar um momento de quase fantasia. Mas certamente o carisma e a energia da "pimentinha", e principalmente a voz poderosa que saiu daquele microfone foram definitivos para fazer com que aquela mulher de apenas 1,53m de altura parecesse um mulherão aos meus olhos. Porque, naquele instante, eu não vi a Elis com os meus olhos, mas sim com a minha emoção. Inês de Castro, a jornalista com quem eu trabalhava e que me levou ao show, tinha me dado muito mais do que um show. Eu acabara de ser presenteado com um pedacinho de eternidade.



Em uma pesquisa feita pela Folha de São Paulo, em 2001, "Águas de Março", composta por Tom Jobim, foi eleita a melhor música brasileira de todos os tempos. A versão em dueto gravada com Elis em 1974, no álbum "Elis & Tom", e que aparece nesse vídeo, foi considerada uma das 10 mais importantes gravações de música popular no mundo. A fonte dessa informação é uma lembrança que tenho, anos atrás ouvi isso, mas não consegui encontrar uma confirmação oficial.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O primeiro show - parte 1

O bairro de Santana, em São Paulo. À direita, vista pela lateral, a Paróquia Sant'Ana, vizinha ao meu primeiro emprego. Logo abaixo da igreja, uma escola muito tradicional do bairro, cujo nome não lembro. Ao centro, a Estação Santana do Metrô, sobre a avenida Cruzeiro do Sul. Foto sem crédito

Poucos meses depois que completei 14 anos quis trabalhar. Naquela época, a idade mínima para ser contratado formalmente era essa. Queria ajudar no orçamento da família, por isso a ideia de começar a trabalhar me pareceu tão natural quanto passar a estudar à noite. Um anúncio de jornal que vi num domingo me levou na manhã da segunda-feira à redação de um dos mais tradicionais jornais de bairro de São Paulo, "A Gazeta da Zona Norte". “Precisa-se de Office-boy”, dizia o anúncio. Nas empresas, o "boy" era quem fazia os serviços de rua, muitas das coisas que hoje os motoboys fazem. Preenchi uma ficha e escrevi uma redação dizendo por que queria trabalhar ali. Era o mais novo dos 9 candidatos à vaga, e o mais caipira de todos. A sede do jornal ficava no bairro de Santana, distante uns 30 minutos de ônibus de onde eu morava. Era o bairro mais movimentado da Zona Norte paulistana, com um comércio importante, agências bancárias e até uma estação de Metrô, a Estação Santana da linha Norte-Sul, que havia sido entregue à cidade três anos antes. Eu achava aquilo quase outro mundo. Gente por todo lado, ônibus pra todo lado, congestionamentos, lojas enormes, poluição sonora, uma verdadeira Babel pra um guri que saía muito pouco da sua região.



Comecei no primeiro dia útil de 1978. Na "Gazetinha" trabalhavam quatro jornalistas em dois turnos. Um deles, e que na verdade entrou depois de mim, era a Inês de Castro, por quem me afeiçoei logo e muito naturalmente. Filha de Eurípedes de Castro, político já falecido e que teve considerável importância na sua época, Inês era uma entre muitos filhos. Se não me engano, eram nove irmãos ao todo, a grande maioria composta por mulheres. Os Castro eram uma família muito diferente das que eu havia conhecido até então. Eram todos artistas, profissionais ou amadores. Cantavam, dançavam, compunham, atuavam no teatro adulto e infantil. De cara, a Inês se impressionou com o meu apetite por música brasileira. Naquela altura, eu já era um iniciado na MPB. Sabia cantar muitas músicas novas e antigas, e tinha até um repertório razoavelmente sofisticado para um garoto da minha idade. Ela se impressionou especialmente com a facilidade que eu tinha para decorar letras, por mais rebuscadas que fossem. Observava como eu acompanhava a música atentamente pelo rádio de pilha sobre minha mesa e dizia, por detrás de seus óculos: “Não acredito, essa música saiu anteontem e você já sabe cantar?”. Ela e referia a "Geni e o Zepelim", do Chico, que havia sido lançada naquela mesma semana, e cuja letra quilométrica eu decorei em três ou quatro escutadas. Um dia, ela chegou pra mim toda feliz: “Na sexta-feira vou te levar no show da Elis Regina. Pode falar pros seus pais que depois te deixo na sua casa. Já tenho os ingressos, é um presente meu, acho que você vai gostar”. Eu nunca tinha ido a um show. Dois anos antes tinha visto a Inezita Barroso se apresentar no pátio da minha escola, nas comemorações do Mês do Folclore, e só.


A paulistana Inezita Barroso, cantora, atriz e há quase 30 anos apresentadora do programa “Viola, minha viola” na TV Cultura de São Paulo, conquistou fama com seu vozeirão ao gravar grandes clássicos da música caipira. Professora de folclore em duas faculdades, interessou-se desde cedo pelo gênero musical que retrata o modo de vida da gente do interior. Seu maior sucesso, a moda de viola “Moda da Pinga”, de Ochelsis Laureano e Raul Torres, possui uma das letras mais engraçadas e politicamente incorretas da música brasileira. O curioso é que o manguaceiro retratado na canção não é um homem, como era de se esperar, mas sim uma mulher. A animação deste vídeo é medonha de tosca, talvez por isso mesmo tenha lá sua graça. 

Não lembro exatamente o que eu disse pra Inês naquele momento, se é que consegui dizer algo além de um "puxa, muito obrigado!", mas dei um abraço nela e a considerei a pessoa mais incrível do mundo. Um teatro de verdade, um show de verdade, e daquela que já era considerada por muitos a melhor cantora do país. Elis Regina, aqui vou eu! (continua)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dancin' days

Estávamos em 1977. Quem tinha menos de 18 anos (ou até mais que isso) e era de alguma forma afetado pela cultura pop (e quem não era?), certamente entrou nessa dança. Literalmente. A disco music, que já existia como gênero desde o início dos anos 1970 e trazia ingredientes do funk, do soul e de alguns ritmos caribenhos, ganhava um impulso de massa que faria a coisa virar febre mundial. Estreava nas telas de todo mundo o longa-metragem “Saturday Night Fever”, aqui traduzido para “Embalos de Sábado à Noite”. Dirigido por John Badham, o filme tinha dois trunfos que explicaram boa parte do seu estrondoso sucesso: a música dos Bee Gees e o carisma do quase estreante ator John Travolta, que deu vida e corpo a Tony Manero, um vendedor de tintas que, como muitos dos seus amigos igualmente jovens e pobres, via nas pistas de dança sua única chance de ser alguém.



Pronto, o gênero musical que aqui foi chamado de “discoteca”, em alusão às boates e clubes noturnos onde se tocava tal música, passou a arrastar multidões em torno do ritmo e das melodias contagiantes, de coreografias pré-ensaiadas, de luzes que não paravam de piscar e de muita potência de som. Com14 anos de idade, e criado num ambiente em que a cultura popular reinava, eu, claro, fui junto. Depois de assistir ao filme por duas ou três vezes no cinema, disputando lugar até no chão, tamanha a quantidade de gente que lotava todas as sessões, passei a freqüentar as “domingueiras”. Em quase todas as tardes de domingo íamos ao salão da Associação Atlética Ponte Pequena (acho que era esse o nome), na Zona norte de São Paulo, eu, meu irmão Dario, quase dois anos mais velho, e alguns amigos e amigas da escola e do bairro. Apesar de gostar daquela música, de me sentir também parte daquela febre, eu ficava meio deslocado. Além de ser o caçula da turma, eu nunca fui muito bom numa pista de dança. Já meu irmão barbarizava, era o próprio Tony Manero, reproduzindo com perfeição quase todos os passos que John Travolta fazia no filme, inclusive nas danças em par.



O sucesso do filme foi tanto que no ano seguinte a TV Globo produziu a novela Dancin' Days, com Sonia Braga no papel de Júlia, uma ex-presidiária que dá a volta por cima justamente ao esbanjar sensualidade e beleza nas pistas de uma discoteca. A chamada “Era Disco” extrapolou a música e ajudou também a criar um estilo de vida, uma forma mais imediatista de encarar as coisas, além de ter ditado moda. Havia os sapatos plataforma, as calças boca-de-sino (que faziam nossos pés parecerem verdadeiros badalos e nossas canelas verdadeiras patas de elefante) e camisas com golas enormes e estampas impensáveis até então. Quem tem mais de 40 anos de idade, ainda hoje não resiste a chacoalhar o esqueleto ao som daquelas músicas. Os DJs sabem bem disso quando precisam agitar alguma festa de casamento, de formatura ou coisa parecida. Basta colocar algo dos Bee Gees, da Donna Summer, do Village People, da Gloria Gaynor ou das Frenéticas pra rodar que a pista será invadida por quarentões saudosos do tempo em que dançavam para soltar suas feras, esquecer suas frustrações, mandar tudo que fosse ruim para uma outra dimensão, nem que fosse por apenas algumas poucas horas.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cale-se

Na foto sem crédito, da esquerda para a direita, Leila Diniz, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengel e Ruth Escobar. (na identificação das mulheres, tive a colaboração de Liz Kasper)

Preciso segurar um tantinho mais o calendário, para resgatar um evento que vai originar uma boa história que aconteceu comigo anos depois, e que ainda irei relatar aqui. Quero falar de uma música que praticamente me apresentou ao "mundo adulto", mais precisamente à complicada situação política e social que o Brasil vivia na época em que eu ainda perdia roupas por mudar de tamanho. Provavelmente, “Cálice” foi a primeira letra de música “de gente grande” que aprendi e aprendi num tiro, em três ou quatro ouvidas. Claro que, de início, entendi apenas uma pequena parte das metáforas e artimanhas poéticas que Chico Buarque e Gilberto Gil engendraram naquela letra, nascida no sábado seguinte à Sexta-feira Santa de 1973. Aliás, só fui aprender a cantar a música em 1978. Por obra da censura militar, o Brasil demorou ansiosos 5 anos para conhecer esta belíssima letra.
VETADO, por ter o autor empregado palavras comuns ao linguajar da Bolsa de Valores, mas que não se adaptam à uma mulher principalmente em letra de música popular. O autor parece estar de uns tempos para cá muito “preocupado” em denegrir a reputação de todas das mulheres, vide uma de suas últimas composições – “Minha História”, que relata a vida de um homem filho de uma prostituta. Em 21/7/71" (sic). Assim se justifica o censor ao barrar mais uma música de Chico Buarque.

Chico deu o pontapé inicial: a frase “Pai, afasta de mim esse cálice”, tirada da passagem bíblica em que Jesus teria derramado lágrimas de sangue às vésperas de sua paixão, já vinha com o duplo sentido necessário. Os militares ainda governavam o Brasil com mão de ferro. Nos subterrâneos dos quartéis, o vinho tinto de sangue seguia manchando as páginas da nossa história. Na imprensa e na vida política e cultural do país, a mordaça da censura provocava um silêncio ensurdecedor. Chico e Gil escreveram a letra a quatro mãos especialmente para o show Phono 73, que a gravadora Phonogram (ex Philips, e depois Polygram) organizaria no Anhembi, em São Paulo, logo no mês seguinte. O show seria um encontro em duplas dos maiores nomes do elenco da gravadora.



Apresentada antes à censura, “Cálice” foi vetada. O recado veio na forma de uma “recomendação” para que Gil e Chico não a cantassem no show. No entanto, eles decidiram promover uma espécie de desobediência civil e começaram a apresentar a inédita “Cálice” para uma plateia que, àquela altura, já esperava avidamente para conhecer a nova composição. Eles não cantaram a letra. Puseram-se a inventar palavras, inventar idiomas, comer frases, vocalizar partes da melodia. Até que o som do microfone do Chico foi cortado. Ora o microfone era desligado, ora o retorno sumia, deixando o cantor sem saber se estava ou não sendo ouvido. Esse fato acabou criando uma verdadeira lenda em torno de “Cálice”. Mesmo eu, que mal começava a entender o que era o regime militar e o que significava censura, era um dos brasileiros impactados por aquele fato e que não viam a hora de escutar na íntegra a música que por anos pairou como uma sombra sobre a massa crítica do país.



Quando "Cálice" foi finalmente liberada, Chico ficou um pouco reticente em gravá-la, pois se encontrava em outro momento artístico, compondo para o musical "Ópera do Malandro". Mas era importante, ele sabia, registrar essa que talvez tenha sido a música que mais claramente disse não à censura. Gilberto Gil, que na época tinha acabado de sair da Polygram, não participou da gravação. A parte que lhe coube na letra foi cantada por Milton Nascimento. A censura só seria abolida no Brasil em 1988.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Vamos dançar?

A partir do momento em que ultrapassei a primeira década de vida, e até alguns anos depois, meu interesse por música foi alternando entre a MPB e o pop internacional. O rock não me pegou. Os Beatles, banda que talvez tenha sido a responsável pela transição do rock básico e simples para um outro de som e temática mais complexos, já não existiam mais como grupo. O rock entrava na sua maioridade, perdera o ar ingênuo dos anos 1960, incorporara novos equipamentos, teclados com recursos mais sofisticados, sons de orquestra e músicos virtuoses. Eu praticamente passei batido por tudo isso.





Em 1967, o jovem inglês Bernie Taupin foi contatado por Ray Williams, da Liberty Records. Ele e o também jovem Reg Dwight haviam respondido ao mesmo anúncio da gravadora, que procurava jovens talentos. Bernie mandou algumas de suas poesias, e o pianista Reg, algumas de suas melodias. Ray Williams resolveu juntar o letrista que precisava de um músico ao músico que precisava de um letrista. Foi uma questão de tempo para que as canções da dupla, interpretadas por Elton John (na verdade, pseudônimo de Reg Dwight) começassem a fazer sucesso no mundo inteiro.

Credito meu desinteresse pelo rock à minha preferência por músicas essencialmente “melodiosas”. Outro fator foi meu total desconhecimento da língua inglesa. Quando fiz o antigo ginásio (hoje ensino médio), o currículo das escolas incluía aulas de francês. O Brasil ainda vivia os últimos ecos de uma época em que a cultura europeia foi mais presente no nosso cotidiano do que a americana, por isso ainda se lecionava o francês nas escolas públicas. Tive dois anos de francês e dois de inglês. Claro, foi o básico do básico do básico, e para nada aquilo serviu. Frequentar escolas particulares de inglês era algo impensável para mim e para a grande maioria dos meus amigos da mesma idade. Então, para quem preferia a melodia e começava a prestar atenção nas letras, era até natural que o rock passasse batido, como passou. Meu próprio temperamento à época, bastante reservado e tímido, me aproximava de sons mais calmos, intimistas, introspectivos.




Proibido para diabéticos: ainda no "Jackson Five", Michael canta a pra lá de açucarada "One day in your life"

Por razões melódicas, eu abria uma enorme exceção na falta de entendimento das letras em inglês para as músicas pop, ou mesmo para o chamado "rock romântico". Naqueles anos, as rádios bombardeavam sucessos de músicos internacionais de grande talento e apelo comercial, cujos chamados “hits” aqui viravam temas de novelas, faixas em LPs de intermináveis coletâneas e pedidos infalíveis nos bailinhos de garagem. Aliás, as sequencias que emendavam 4 ou 5 "lentas", momento em que o rapaz "tirava" uma moça pra dançarem os dois colados, mas colados mesmo, acabaram sendo responsáveis pela alcunha pouco lisonjeira com que essas canções ficaram conhecidas: a de músicas “mela-cueca”.


Gosto de ouvir músicas em alto e bom som. Quando dá, lógico. Esta, cantada pela americana Maggie McNeal, que estourou por aqui em 1976, eu costumava ouvir lá nas alturas. Gostava muito da voz, muitíssimo da melodia, e adorava as intervenções da bateria, quebrando o mingau melódico com porradas que hoje me soam espetaculosas demais. E confesso que nunca tinha visto a cara da moça.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Clara dá o primeiro samba

Clara Nunes em foto sem crédito

Era mineira, era linda e cantava divinamente. Clara Nunes nasceu no dia 12 de agosto de 1943. Portanto, se Deus não precisasse levá-la tão cedo pra enfeitar as rodas de samba por lá, faria hoje 66 anos de idade. Para quem não sabe, ela morreu em 1983, vítima de complicações de uma cirurgia que deveria ter sido simples. Em 1973 (parece que os anos 3 são recorrentes nessa história; eu que nasci em 1963, claro que não tenho nada com isso, mas vale a citação), gravou o LP Alvorecer, que tinha como uma das faixas a belíssima "Conto de areia". Esse samba estourou nas rádio de um jeito que não havia santo dia em que não se ouvisse a voz da Clara cantando "O mar serenou quando ela pisou na areia...". Era o primeiro grande sucesso nacional da cantora. Daí por diante, e durante muito tempo, não haveria uma festa ou reunião de amigos na mesa de um bar em que alguém não puxasse esse samba pra cantar. O disco vendeu 300 mil cópias, marca muito expressiva para a época. Aliás, Clara Nunes foi a primeira cantora brasileira a vender mais de 100 mil cópias de um disco. As portas estavam definitivamente abertas para a "Sabiá", e ela brilhou sempre intensamente.
Tenho pra mim que "Conto de areia" foi o primeiro samba que aprendi a ouvir e cantar. Lembro que ficava atento à condução da letra, percebia a narrativa como algo novo, diferente, era a primeira música que parecia querer contar uma história para mim. Acredito que isso acontecia porque foi naquele tempo que comecei a tentar entender os versos das músicas. Tentava, porque no caso desta levei um tempão pra descobrir que a frase "Era um peito só cheio de promessa..." era assim e não "Era um 'peixe' só cheio de promessa...", como eu entendia e cantava. A temática da canção me induziu ao erro, por anos. E quando chegava a hora do "Quem foi que mandou o seu amor se fazer de canoeiro...", parecia que começava uma outra música. Eu tinha a nítida sensação de que se tratava de dois lindos sambas emendados. Claro que isso era coisa da minha cabeça, mas vai que.



"Conto de areia"
Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento

É água no mar, é maré cheia, ô
Mareia, ô, mareia

Contam que toda tristeza
Que tem na Bahia
Nasceu de uns olhos morenos
Molhados de mar.
Não sei se é conto de areia
Ou se é fantasia
Que a luz da candeia alumia
Pra gente contar

Um dia a morena enfeitada
De rosas e rendas
Abriu seu sorriso de moça
E pediu pra dançar
A noite emprestou as estrelas
Bordadas de prata
E as águas de Amaralina
Eram gotas de luar

Era um peito só
Cheio de promessa, era só
Era um peito só cheio de promessa

Quem foi que mandou
O seu amor
Se fazer de canoeiro
O vento que rola das palmas
Arrasta o veleiro
E leva pro meio das águas de Iemanjá
E o mestre valente vagueia
Olhando pra areia sem poder chegar

Adeus, amor
Adeus, meu amor
Não me espera
Porque eu já vou embora
Pro reino que esconde os tesouros
De minha senhora
Desfia colares de conchas
Pra vida passar
E deixa de olhar pros veleiros
Adeus, meu amor, eu não vou mais voltar

Foi beira-mar, foi beira-mar quem chamou
Foi beira-mar ê, foi beira-mar

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Uma vila mágica

Na foto sem crédito, Sônia Braga e o ranzinza Gugu, integrantes da querida Vila Sésamo, a vila operária que conquistou um lugar de honra na memória de toda uma geração

Antes de deixar para trás a fase das primeiras músicas, aquelas que ouvia na infância e na adolescência, pego um rápido retorno para falar um pouco sobre o que não pode ficar só na saudade: os programas infantis. Desde que a TV passou a ocupar lugar de destaque nas salas de praticamente todos os lares brasileiros, programas produzidos para crianças, de caráter educativo ou puramente de entretenimento, passaram a ir ao ar com regularidade. Um dos pioneiros, o Vila Sésamo, na verdade uma versão brasileira de uma série norte-americana, foi exibido, em seu primeiro ano, na TV Cultura. Nessa época, a TV Globo não tinha estúdio para gravação, daí o programa, em seu início, ter sido co-produzido pelas duas emissoras. A partir de 1974, a Globo assumiria sozinha a “segunda fase”, que era transmitida duas vezes por dia, de manhã e à tarde. Eu quase já não era mais uma criança, tinha entre 10 e 11 anos de idade, mesmo assim acompanhava todos os episódios e adorava tudo, inclusive as músicas, fossem as que tinham conteúdo claramente didático, fossem as que eram dedicadas aos bonecos, cada qual com sua personalidade, cada qual com seu encanto.



As duas gerações de crianças seguintes à minha também tiveram e ainda têm seus programas infantis recheados de músicas, sendo que muitas delas acabaram se tornando sucesso, vendendo discos e mais discos. Especialmente no caso de uma certa apresentadora loira, xabe qual? Mas acredito que dificilmente um outro programa do gênero conseguirá a façanha de reunir novamente tantos talentos, por trás e à frente das câmeras, como foi o caso da primeira versão do Vila Sésamo. Contar no elenco com uma Sônia Braga estreando na TV, o fantástico Milton Gonçaves, o genial Paulo José, enfim, dê uma olhada na ficha técnica da produção. Ela explica tudo.

Coordenação: Wilson Aguiar
Direção de cena: Milton Gonçalves
Produção: Jayme Leite e Godoy Camargo
Criação dos bonecos: Naum Alves de Souza
Músicas: Marcos e Paulo Sergio Valle

Elenco:
Armando Bógus (Juca)
Aracy Balabanian (Gabriela)
Sônia Braga (Ana Maria)
Flávio Galvão (Antônio)
Laaerte Morrone (Garibaldo)
Paulo José (Mágico)
Flávio Migliácio (Edifício)
Manuel Inocêncio (Seu Almeida)
Milton Gonçalves (Professor Leão)
Ayres Pinto (Cuca)
Luiz Antonio Angelucci (Bruno)
Marcos Miranda (Funga-Funga)

Manipulação dos bonecos:
Roberto Orozco (Gugu)
Teresa Cristina (Pipoca)
Elany Del Vechio (Jujuba)
Sônia Guedes (Marocas)
Antônio Petrin (Marinheiro)
Henrique Lisboa (Sabichão)
Aziz Bajur (Bidu)

Não sei você, mas me emocionei vendo este vídeo. O Garibaldo era, disparado, o mais querido personagem da Vila. Era feito pelo inesquecível ator Laerte Morrone, que nos deixou em 2005, aos 72 anos de idade.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Um disco pra chamar de meu

A ventania! Olha a ventania!!”, gritava a minha tia Ilda. E partiam as duas aflitas pro quintal, ela e a filha Regina, correndo recolher do varal todas as roupas, mesmo as que ainda estavam úmidas. Ia chover, e chover forte. Mas não era isso que eu entendia daquela cena. Para mim, um pirralho ainda em fraldas, “ventania” era o nome de uma bruxa má que andava pelas ruas carregando uma enorme e pesada sacola. Sua imensa maldade consistia em roubar dos varais das casas as roupas estendidas (na foto sem crédito, a atriz americana Agnes Moorehead, caracterizada como a bruxa Endora da série de TV "A Feiticeira", produzida entre 1966 e 1972)

O ano era 1976. Naquele exato dia eu estava completando 13 anos de idade. Acordei com um primo meu chacoalhando minha cama. Era o Gilberto, o “Této”, com quem muito antes eu tinha tido experiência de irmão. Numa época não muito precisa, eles me acolheram por um tempo. Sua mãe, minha tia Ilda, chamada pelos sobrinhos de “Tidinha”, é por isso para mim minha segunda mãe. Ainda hoje vejo com nitidez cenas que ficaram na minha memória, naquelas horas em que a memória parece funcionar fora da gente. Vejo-me acordado e em pé dentro do berço, segurando na grade alta de madeira, a prima Regina chegando para abrir a janela e botar o dia para dentro do quarto. Lembro do café da manhã com manteiga pura comprada numa casa vizinha, naquela periferia de São Paulo onde ainda tinha gente que criava vacas. Lembro do tio Joãozinho saindo de caminhão para a lida. Talvez tenha sido nesse tempo que aprendi que a maior benção da vida é poder ficar em pé para receber um novo dia.

O britânico Rod Stewart começou a mostrar seu timbre rouco e áspero como vocalista do "The Faces". O guitarrista do grupo era Ron Woods, que mais tarde passaria a integrar os "Rolling Stones". Depois de iniciar sua vitoriosa carreira solo, no início dos anos 1970, Rod Stewart mudou-se para os Estados Unidos e pediu a cidadania norte-americana. No mesmo ano, mais precisamente 1975, lançou o álbum "Atlantic Crossing". A canção de maior sucesso foi "Sailing", que atingiu o topo das paradas do mundo. Outra canção muito conhecida do álbum é a belíssima "I Don't Want To Talk About It".

Eis que acordo naquele meu aniversário de 13 anos com o Gilberto me dando os parabéns e me entregando, eu ainda confuso de sono, um compacto-duplo acondicionado num envelope de presente. Abro ansioso para descobrir um disco do Rod Stwart. Pelo menos uma das quatro canções do compacto eu já cantava de cor, a faixa "Sailing", que frequentava as rádios paulistanas desde o ano anterior. Eu ganhava, então, meu primeiro disco. Anos depois, e por muitas vezes, ouvi dos meus amigos e parentes a frase “quer agradar o Marcelo, dê pra ele um disco”. E essa era uma verdade, uma verdade tão pura quanto a manteiga da vizinha da Tidinha, da nossa vizinha. Meu primo Gilberto não sabe, mas naquele dia ele eternizou em mim um valioso instante. Mesmo que eu chegue aos 80 ou 90 anos de vida, ainda me lembrarei daquela manhã em que fui acordado por música.

Curiosidade: Ron Woods aparece no comecinho do vídeo acima, despedindo-se após certamente ter feito uma participação especial nesse show do Rod Stewart.