sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Feliz Natal e um grande 2010!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Intervalo - Blitz


Entramos em 1982, ano que marca o início da explosão do rock nacional dos anos 80. Uma das precursoras desse fenômeno foi a banda Blitz, que estourou nas paradas daquele ano com a irreverente "Você não soube me amar". A banda, que tinha Lobão na bateria e Fernanda Abreu no backing vocal, era liderada por Evandro Mesquita, ex-integrante do grupo de teatro Asdrubal Trouxe o Trombone, criado em 1974 por Regina CaséHamilton Vaz Pereira. Aliás, a frase Asdrubal trouxe o trombone era um código combinado entre Regina e seu pai, Geraldo Casé. Quando a festa em que eles estavam começava a ficar caída, ou quando aparecia algum chato numa reunião, um deles dizia o código e ambos davam um jeito de escapar dali. Como eu me encontrava numa fase radicalmente MPB, não dei muita atenção à Blitz, nem aos demais grupos de rock que iam surgindo aqui e ali. Na verdade, só fui mesmo começar a dar crédito para o que acontecia na mídia quando ouvi uma das primeiras composições de dois jovens do Rio de Janeiro, até então completamente desconhecidos em São Paulo. O nome deles? Cazuza e Frejat. Mas essa já é uma outra história.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Mais um festival - final


A ansiedade era grande. Enquanto os jurados se reuniam em algum lugar fechado para contabilizar as notas, o grupo vencedor da edição anterior do festival fazia um show que eu nem conseguia acompanhar. Sabíamos que estaríamos entre os primeiros colocados, mas era um saber apoiado apenas em suposições, na reação do público, nos comentários de bastidores dos concorrentes, nos cumprimentos mais animados que recebi de parte da equipe que organizava o evento. No fim, todos os finalistas esperavam por um bom resultado, já que muitas músicas eram de qualidade e tinham tido boa receptividade do público. Uma ou outra se sobressaiu, é verdade, e a nossa foi uma delas. As três primeiras classificadas iriam se reapresentar, por isso lembro que nenhum dos cantores arriscou beber uma cerveja que fosse nesse intervalo. Também haveria a reapresentação do melhor intérprete e da melhor letra. Eis que o show da banda termina, chegava a hora de conhecer o resultado final.


A campeã do Festival de MPB da TV Tupi, realizado em 1979, foi "Quem me Levará Sou Eu ", de Manduka e Dominguinhos, defendida por Fagner.

Melhor letra: deu a marcha-rancho. Não lembro o nome da música, menos ainda qualquer trecho dela. Mas lembro do autor com seu violão subindo ao palco para receber o prêmio, sob aplausos. Os músicos subiram juntos, e já foram se preparando para reapresentarem a música. Uma movimentação qualquer do pessoal da organização e todos desistiram, descendo mudos e ainda mais sorridentes do palco, o que fez todo mundo concluir que eles estariam entre as três vencedoras, o que não era nenhuma surpresa para mim nem, acredito, para a maioria das pessoas que estavam lá naquela noite


"Dona", de Sá & Guarabyra, embora tenha tido grande destaque como finalista do MPB Shell 82, não ficou entre as premiadas.

Melhor intérprete: o apresentador chamou meu nome. Eu não esperava ganhar tal prêmio. Estava apostando em uma garota que havia defendido uma das finalistas, que apesar de não ser uma das favoritas como música, tinha possibilitado a ela mostrar uma voz muito afinada e com boa extensão de notas. Surpreso e feliz, me desvencilhei dos abraços para subir ao palco e receber um envelope onde havia um certificado feito às pressas. Tão às pressas que haviam grafado errado a história. Estava escrito lá, com todas as letras: “Marcelo Amorim, melhor intérprete em canto feminino”. É, o cara que datilografou o negócio não entendeu direito o que ditaram, e ao invés de escrever o nome da música, escreveu isso, que virou piada na hora, e da boa.


Jessé foi o Melhor Intérprete do festival MPB Shell 80, ao defender "Porto solidão", de Zeca Bahia e Ginko

Chegara a hora das três melhores classificadas. Que música ficou em terceiro lugar eu não lembro de jeito nenhum. Em segundo lugar, lá estava a marcha-rancho, que entre muitos aplausos e alguns poucos protestos de quem queria que a mesma ganhasse o festival, foi reapresentada e teve seu refrão cantado pela plateia, por mim inclusive. Assim que eles terminaram, me adiantei a cumprimentar o autor e o grupo todo, músicos anos-luz à frente de mim e de qualquer dos amigos, namorada, vizinho, a turma que se juntou para me ajudar a defender a música que fiz em parceria com o Joel de Moraes. De alguma forma, tive a sensação de participar da conquista daquele pessoal da marcha-rancho, acho que por ter apostado na música deles desde o início.


Além de conquistar o 1º lugar no festival MPB Shell 82, o samba "Pelo amor de Deus", de Paulo Debétio e Paulinho Rezende, foi responsável por redirecionar a carreira do cantor Emilio Santiago.  

Eis que chegou após um breve suspense, o apresentador anuncia a vencedora. Quando eu vi, já tinha sido erguido nos ombros por vários amigos que estavam à minha volta, e assim fui levado para o palco. A “Encanto feminino” tinha sido anunciada como a melhor música daquele festival. A festa foi muito grande, e o público era quase unânime em concordar com o resultado. Nos apresentamos de novo sob intensos aplausos e saímos dali felizes da vida, carregando um envelope com uma certa quantia em dinheiro e um troféu, os prêmios pela primeira colocação.


A bela "Verde", parceria dos compositores paulistas Eduardo Gudin e José Carlos Costa Neto, levou o 3º lugar no Festival dos Festivais da TV Globo, realizado em 1985, e projetou nacionalmente a jovem paraense Leila Pinheiro. Na letra era retratado o clima de esperança que tomava conta do país com a recente abertura política.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 3



Nos anos 1980, Nilson Chaves e Vital Lima faziam parte de um grupo de compositores que se dedicou a disputar festivais de música pelo interior do país. Eles e artistas como Celso Viáfora, a dupla Jean e Paulo Garfunkel, entre outros, inscreviam suas composições nos principais festivais que aconteciam nos diversos cantos do Brasil, onde chegavam sempre como favoritos. Aqui e ali iam ganhando prêmios. Por um bom tempo, alguns fizeram disso quase uma profissão. 

No sábado seguinte, marcado para a final, chegamos ansiosos ao Chafic. As apresentações aconteceriam na quadra de esportes, um espaço amplo e coberto que havia no colégio e que tinha um palco numa das extremidades, não sei dizer agora se esse palco era uma estrutura fixa ou montada apenas para o festival. Tínhamos uma torcida considerável. Fora os amigos e alguns parentes, havia muita gente na plateia que torcia pela nossa música, que àquela altura era considerada uma das favoritas aos prêmios em dinheiro que seriam dados aos três primeiros lugares. Tínhamos conquistado também a simpatia de vários dos nossos concorrentes, que diziam abertamente que gostariam de ver a “Encanto feminino” entre as primeiras colocadas.


Entre os festivais de música da época, o de Avaré, no estado de São Paulo, era um dos principais, tanto pelo nível dos concorrentes quanto pela premiação. Moacir Luz soube da qualidade do festival pelo seu amigo Lenine. inscreveu a música "Choro das ondas" e conquistou o quarto lugar. Mais animado ainda, no ano seguinte inscreveu "Alafim", parceria com Aldir Blanc, com a qual ganhou o festival. Como era de praxe, o ganhador participava do  júri no ano seguinte, juri que aliás era presidido pelo Zuza Homem de Mello. Quando Moa soube que o prêmio do ano seguinte seria um carro, ele abriu mão de ser jurado e concorreu de novo. Resultado, ganhou um carro zerinho, que vendeu na manhã seguinte numa concessionária da cidade (fonte: Blog do Moa).

A acolhida do público que lotava aquele espaço foi calorosa, do começo ao final da nossa apresentação. Primeiro o silêncio, todos queriam mesmo ouvir a música. Depois, aplausos e gritos entusiasmados irromperam assim que terminamos de cantar. Não resisti a olhar para o júri, um grupo de aproximadamente dez pessoas, entre professores de arte e música, além de um ou outro músico e de representantes de entidades como o Lions Club local. Por local entenda-se os bairros de Santana e Tucuruvi, então os mais populosos e dinâmicos da Zona Norte de São Paulo. Três jurados anotavam algo em cartões enquanto balançavam a cabeça positivamente.


A música "Encontro das águas", composição de Jota Maranhão e Jorge Vercillo, era uma das concorrentes na mesma edição do festival de Avaré em que Moacir Luz obteve o quarto lugar. Embora tenha perdido grande parte do seu brilho, esse festival continua a ser realizado todos os anos. Neste 2009, o evento chegou à sua 27a. edição. 

Outras músicas também tiveram acolhida calorosa. O nível daquele festival amador era realmente bom. Todos os participantes tinham, como eu, crescido ouvindo música brasileira de muita qualidade, desde aquela produzida para os festivais da Record até os clássicos da época da ditadura. O mercado fonográfico nacional ainda não tinha entrado na fase de lançar modismos musicais. A geração que gostava de música brasileira naquele início dos anos 80 ainda consumia em larga escala a obra dos grandes nomes da MPB, muitos dos quais se encontravam no auge de sua carreira, vendendo centenas de milhares de discos. Uma das músicas concorrentes era particularmente muito boa, uma marcha-rancho com ótima letra e melodia inspirada. Era interpretada por um grupo de bons músicos e pelo autor no vocal, que dava bem conta do recado. Fiquei atento a cada apresentação, e quando elas terminaram, avaliei que brigávamos com pelo menos cinco boas canções, sendo que a marcha-rancho me parecia ser a concorrente mais forte. Eu estava certo.


Neste vídeo, a música "Tempodestino", de Nilson Chaves e Vital Lima, cantada pelos dois com a participação de Leila Pinheiro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Intervalo - Ney Matogrosso



Ex-vocalista do Secos & Molhados, grupo que marcou época com apenas dois LPs lançados na primeira metade da década de 1970, Ney Matogrosso foi sempre um transgressor. Dono de uma voz incomum, tão aguda quanto límpida, transita com desenvoltura por todos os estilos de música. Vai dos maiores clássicos da MPB ao som regional ou pop, e sempre com muita originalidade e talento. A bela “Viajante”, de Tereza Tinoco, foi um dos maiores sucessos do ano de 1981. Era uma das músicas que mais me pediam para cantar, onde quer que eu estivesse com o violão. No embalo das canções do Lô Borges e do Beto Guedes, que eu ouvia muito e que por isso influenciaram muitas das minhas composições da época, eu costumava ter facilidade para alcançar notas mais altas. De certa forma, isso fez com que eu viesse a desenvolver uma extensão de voz maior do que teria naturalmente, já que meu pai e meu irmão possuem um registro vocal bastante grave. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 2


Lucinha Lins (aqui, em foto de Antonio Guerreiro), protagonizou a maior vaia da história da música brasileira. Em 1981, a bela loira, então casada com Ivan Lins, ainda era conhecida apenas como backing vocal dos shows do marido, quando invariavelmente roubava a atenção do público masculino (eu mesmo sou testemunha ocular e cúmplice disso). Pois no Festival MPB Shell daquele ano, último da série que a TV Globo promoveu, a vitória da música "Purpurina", de Jerônimo Jardim, defendida por Lucinha, contrariou o abarrotado Maracanãzinho, que torcia em uníssono por "Planeta Água", de Guilherme Arantes. Além das vaias, atiravam nela abanadores de papelão. Ivan subiu ao palco e pegou na mão de Lucinha, enquanto esta tentava em vão repetir a canção vencedora. 

Os ensaios foram precários, como haveria de ser, mas muito animados, como também haveria de ser. Precários porque não éramos músicos ensaiando, mas sim uma turma de amigos se divertindo de um jeito pouco comum, participando de um festival de música. Acho que só eu e o Joel levamos aquilo a sério, ao nosso modo. Não lembro mais de quem chamamos para fazer parte do coro da "Encanto feminino", mas certamente estavam nele o autor da letra, Joel de Moraes, meu irmão Dario, minha namorada e vizinha na época, a Elaine e... mais dois ou três que não lembro mesmo. Compramos alguns instrumentos de percussão mais acessíveis e que pareciam fáceis de tocar.


Este vídeo é estranho mesmo, mostra um pouco a Lucinha Lins no palco da final do MPB Shell de 1981 tomando um banho de vaias e o parte da apresentação do Guilherme Arantes. No meio, surge um quizz não identificado. Como não encontrei outro registro da história, vai esse.

A vedete era um "pau de chuva", que dava um som lindo na hora dos vocais sem letra. Tínhamos também dois caxixis, além de outras quinquilharias meio improvisadas. A ideia era fazer um som que remetesse a ruidos da natureza, criando um clima meio natureba, mas principalmente ajudar o violão a preencher possíveis vazios sonoros. Montei a estrutura da música, definimos juntos os momentos em que o coro entrava e gostamos do que fomos capazes de conseguir, sem conhecimento musical. Mas é claro que a música era o que nos dava confiança. "Encanto feminino" tinha carisma. Melodia e letra contavam uma história envolvente e bonita. Era chegar na eliminatória e tentar dar o recado sem errar, porque tínhamos certeza de que nosso "produto" era bom.


Lula presenteia o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, com um legítimo pau de chuva, instrumento de percussão de origem indígena, provavelmente da região amazônica. Ao ser inclinado, pequenas miçangas no interior produzem um som que se assemelha ao de água corrente.

Com toda essa expectativa em torno da "Encanto feminino", o samba "No fundo do fundo" ficou em segundo plano. E bota segundo plano nisso. Meu violão se encarregaria de fazer a marcação principal, eu cantaria e o Joel, o Dario e mais um amigo que também não me recordo quem era ficariam incumbidos de fazer o vocal e algo o mais próximo que fosse de um batuque. Para isso, emprestamos um tamborim e, se não me engano, compramos um agogô., Batíamos naquilo como quem está chamando chuva, mas estava valendo, pois não tínhamos mesmo nenhuma experiência com samba. Mas o samba era bom, eu tinha feito em homenagem à Maria, como já contei aqui num post anterior, minha amiga que sambava lidamente e pela qual tive uma paixão não revelada. Também já contei aqui que essa música é uma das raras que sobreviveram às que fiz naquela época. Então, se a gente também não errasse, podia  até ser que o samba fosse para a final.


A década de 60 tinha ficado para trás, mas o início dos anos 80 parecia querer provar que o interesse por festivais de música brasileira permanecia vivo.

Eram duas eliminatórias em dois sábados seguidos, com 15 músicas cada. Participamos de ambas, na primeira com "Encanto feminino"; na segunda, com "No fundo do fundo". A final seria no terceiro sábado, reunindo as 6 classificadas de cada eliminatória, ou seja, 12 músicas disputando os três primeiros lugares, fora o prêmio de melhor intérprete, que incluia até as não classificadas. A "Encanto" foi muito bem recebida pela platéia. Ao final de todas as apresentações, recebemos a notícia da classificação para a final. A comemoração foi grande. No sábado seguinte, a "No fundo" não provocou tanto entusiasmo, mas foi elogiada. Por sugestão dos organizadores do evento, um grupo de samba que participava do festival se ofereceu para me ajudar na apresentação, fazendo a marcação do ritmo. Por um misto de timidez e soberba, agradeci mas declinei da oferta. Pura estupidez. Fiquei sabendo depois que os jurados lamentaram o fato do samba ser tão bom mas ter sido mal executado. O grupo de sambistas emplacou a música deles, um samba empolgante e impecavelmente conduzido. "No fundo" ficou no caminho. Mas estaríamos de volta no sábado seguinte para defender a "Encanto". A briga ia ser boa. Havia concorrentes com belas canções, músicos e compositores acostumados a frequentar festivais amadores. Para nós, tudo era lucro.


Em 1985, a TV Globo inventou um novo festival, que recebeu o pretensioso nome de Festival dos Festivais. A canção vencedora foi "Escrito nas estrelas", de Carlos Rennó e Arnaldo Black, defendida pela matogrossense Tetê Espindola. Com sua voz poderosa e timbre pra lá de incomum, Tetê emitia, sem saber, o canto do cisne dos grandes festivais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 1



1981 ainda não terminara, eu ainda não havia atingido a maioridade civil, portanto ainda não estava livre de ser convocado para o exército. Sem conseguir trabalho, eu continuava passando os dias fazendo minhas canções. Na maioria delas eu procurava me aproximar das coisas que ouvia, por isso elas iam do som dos mineiros do Clube da Esquina aos sambas do Chico Buarque, passando por Milton Nascimento, MPB-4, Boca Livre, entre outras referências. Ia compondo, mostrando pros amigos e recebendo elogios. Nessa época, meu amigo Joel se apaixonou por uma garota de um bairro próximo ao nosso. Na verdade, a Vila Nivi era grudada na Vila Gustavo, onde eu morava, que por sua vez era vizinha da Vila Medeiros, endereço do Joel, todos bairros da Zona Norte paulistana, caracterizados como reduto de classe média baixa. Havia alguns núcleos de exceção, famílias com poder aquisitivo maior que a maioria dos que viviam por ali, e esse era o caso da família da Estela. A casa dela era ampla, bonita, e ficava na esquina de uma rua sem saída, onde a maioria das casas era de bom padrão. Durante um certo tempo, a casa da Estela serviu de QG para uma turma de amigos e amigas. Nos reuníamos ali nas noites de sábado e tardes de domingo para ouvir discos de MPB, conversar, beber um pouco, nos divertir sem gastar quase nada. E também para namorar. Bem antes de me apresentar à sua nova paixão e da nossa turma se formar, o Joel me mostrou um poema. Era dedicado à Estela, e narrava com delicadeza o que seria, na visão dele, a passagem da menina para a mulher. O poema chamava “Encanto feminino”, e ele pediu que eu musicasse aquilo.

O garrancho que ainda guardo mostra a data desta parceria com o Joel: julho de 1981.

Eu ainda não tinha feito melodia para a letra de outra pessoa. Estava habituado a pensar nas duas coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes, aliás, a letra me apontava o caminho que a melodia devia seguir. Mas encarei o desafio e não demorei nada a mostrar o resultado. Tive que mexer um pouquinho aqui e ali, adequar uma e outra palavra ou frase para que tudo coubesse na métrica da música. Também acrescentei alguma coisa na segunda parte. Ele gostou muito do que ouviu. Era uma bossa-nova com andamento lento. Começava com um vocal bem aberto e melodioso, que procurava sugerir o despertar de uma manhã de sol. Tão marcante ficou essa abertura, que adotei o vocal como uma espécie de refrão, repetindo-o no meio e no final da música. Usei e abusei de acordes com sétima maior, que davam uma sonoridade expansiva muito bonita e adequada ao clima da letra. Para cantar a música, minha voz ia lá em cima, beirando o falsete, e eu já imaginava um apoio de timbres masculinos e femininos em certos momentos da canção, principalmente na abertura.



Todos que ouviram gostaram muito da música, e ela realmente ficou bonita. Decidimos inscrevê-la no festival de MPB de um dos principais colégios da Zona Norte, o Chafic – Centro de Habilitação, Filosofia e Cultura. Era um festival muito concorrido, estava em sua terceira edição, mas sabíamos que a música tinha força, então comecei a conceber o arranjo e a execução do que íríamos apresentar. Os amigos mais próximos fariam o coro e a percussão. Eu cantaria acompanhado do meu inseparável Di Giorgio. Nesse festival havia um outro atrativo: eles dariam um prêmio para o melhor intérprete. Gravei a música apenas com voz e violão em uma fita cassete e fui ao colégio me inscrever. Na bagagem, levei também um samba só meu, que havia feito em segredo para a minha amiga Maria, dois meses depois de compor a melodia da Encanto feminino", chamado “No fundo do fundo” (calma, não é nada disso que você está pensando). A sorte estava lançada. Era esperar pela peneira inicial dos jurados para saber se alguma delas seria classificada para as eliminatórias. Havia mais de duas centenas de canções inscritas, estar entre as classificadas já seria uma vitória. Até que veio a notícia. Foram duas vitórias. As duas músicas tinahm sido classificadas. Aí, deu aquele frio na barriga. Seria a primeira vez que eu cantaria em voz solo diante de uma platéia duas músicas minhas. Mais do que isso, eu não fazia a menor ideia de como defenderia o samba, já que eu e meus amigos mal sabíamos batucar numa caixa de fósforos.



"Daphnis et Chloé", obra composta para balé pelo francês Maurice Ravel, estreou em Paris em 1912. Esta é a segunda e mais popular parte da peça. É uma das músicas mais bonitas que conheço e, arrisco dizer, uma das composições mais inspiradas de todos os tempos. Sei que a intenção do autor não foi essa, mas sempre enxerguei nessa música a mais perfeita narrativa do nascer do sol.