quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Intervalo - Blitz


Entramos em 1982, ano que marca o início da explosão do rock nacional dos anos 80. Uma das precursoras desse fenômeno foi a banda Blitz, que estourou nas paradas daquele ano com a irreverente "Você não soube me amar". A banda, que tinha Lobão na bateria e Fernanda Abreu no backing vocal, era liderada por Evandro Mesquita, ex-integrante do grupo de teatro Asdrubal Trouxe o Trombone, criado em 1974 por Regina CaséHamilton Vaz Pereira. Aliás, a frase Asdrubal trouxe o trombone era um código combinado entre Regina e seu pai, Geraldo Casé. Quando a festa em que eles estavam começava a ficar caída, ou quando aparecia algum chato numa reunião, um deles dizia o código e ambos davam um jeito de escapar dali. Como eu me encontrava numa fase radicalmente MPB, não dei muita atenção à Blitz, nem aos demais grupos de rock que iam surgindo aqui e ali. Na verdade, só fui mesmo começar a dar crédito para o que acontecia na mídia quando ouvi uma das primeiras composições de dois jovens do Rio de Janeiro, até então completamente desconhecidos em São Paulo. O nome deles? Cazuza e Frejat. Mas essa já é uma outra história.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Mais um festival - final


A ansiedade era grande. Enquanto os jurados se reuniam em algum lugar fechado para contabilizar as notas, o grupo vencedor da edição anterior do festival fazia um show que eu nem conseguia acompanhar. Sabíamos que estaríamos entre os primeiros colocados, mas era um saber apoiado apenas em suposições, na reação do público, nos comentários de bastidores dos concorrentes, nos cumprimentos mais animados que recebi de parte da equipe que organizava o evento. No fim, todos os finalistas esperavam por um bom resultado, já que muitas músicas eram de qualidade e tinham tido boa receptividade do público. Uma ou outra se sobressaiu, é verdade, e a nossa foi uma delas. As três primeiras classificadas iriam se reapresentar, por isso lembro que nenhum dos cantores arriscou beber uma cerveja que fosse nesse intervalo. Também haveria a reapresentação do melhor intérprete e da melhor letra. Eis que o show da banda termina, chegava a hora de conhecer o resultado final.


A campeã do Festival de MPB da TV Tupi, realizado em 1979, foi "Quem me Levará Sou Eu ", de Manduka e Dominguinhos, defendida por Fagner.

Melhor letra: deu a marcha-rancho. Não lembro o nome da música, menos ainda qualquer trecho dela. Mas lembro do autor com seu violão subindo ao palco para receber o prêmio, sob aplausos. Os músicos subiram juntos, e já foram se preparando para reapresentarem a música. Uma movimentação qualquer do pessoal da organização e todos desistiram, descendo mudos e ainda mais sorridentes do palco, o que fez todo mundo concluir que eles estariam entre as três vencedoras, o que não era nenhuma surpresa para mim nem, acredito, para a maioria das pessoas que estavam lá naquela noite


"Dona", de Sá & Guarabyra, embora tenha tido grande destaque como finalista do MPB Shell 82, não ficou entre as premiadas.

Melhor intérprete: o apresentador chamou meu nome. Eu não esperava ganhar tal prêmio. Estava apostando em uma garota que havia defendido uma das finalistas, que apesar de não ser uma das favoritas como música, tinha possibilitado a ela mostrar uma voz muito afinada e com boa extensão de notas. Surpreso e feliz, me desvencilhei dos abraços para subir ao palco e receber um envelope onde havia um certificado feito às pressas. Tão às pressas que haviam grafado errado a história. Estava escrito lá, com todas as letras: “Marcelo Amorim, melhor intérprete em canto feminino”. É, o cara que datilografou o negócio não entendeu direito o que ditaram, e ao invés de escrever o nome da música, escreveu isso, que virou piada na hora, e da boa.


Jessé foi o Melhor Intérprete do festival MPB Shell 80, ao defender "Porto solidão", de Zeca Bahia e Ginko

Chegara a hora das três melhores classificadas. Que música ficou em terceiro lugar eu não lembro de jeito nenhum. Em segundo lugar, lá estava a marcha-rancho, que entre muitos aplausos e alguns poucos protestos de quem queria que a mesma ganhasse o festival, foi reapresentada e teve seu refrão cantado pela plateia, por mim inclusive. Assim que eles terminaram, me adiantei a cumprimentar o autor e o grupo todo, músicos anos-luz à frente de mim e de qualquer dos amigos, namorada, vizinho, a turma que se juntou para me ajudar a defender a música que fiz em parceria com o Joel de Moraes. De alguma forma, tive a sensação de participar da conquista daquele pessoal da marcha-rancho, acho que por ter apostado na música deles desde o início.


Além de conquistar o 1º lugar no festival MPB Shell 82, o samba "Pelo amor de Deus", de Paulo Debétio e Paulinho Rezende, foi responsável por redirecionar a carreira do cantor Emilio Santiago.  

Eis que chegou após um breve suspense, o apresentador anuncia a vencedora. Quando eu vi, já tinha sido erguido nos ombros por vários amigos que estavam à minha volta, e assim fui levado para o palco. A “Encanto feminino” tinha sido anunciada como a melhor música daquele festival. A festa foi muito grande, e o público era quase unânime em concordar com o resultado. Nos apresentamos de novo sob intensos aplausos e saímos dali felizes da vida, carregando um envelope com uma certa quantia em dinheiro e um troféu, os prêmios pela primeira colocação.


A bela "Verde", parceria dos compositores paulistas Eduardo Gudin e José Carlos Costa Neto, levou o 3º lugar no Festival dos Festivais da TV Globo, realizado em 1985, e projetou nacionalmente a jovem paraense Leila Pinheiro. Na letra era retratado o clima de esperança que tomava conta do país com a recente abertura política.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 3



Nos anos 1980, Nilson Chaves e Vital Lima faziam parte de um grupo de compositores que se dedicou a disputar festivais de música pelo interior do país. Eles e artistas como Celso Viáfora, a dupla Jean e Paulo Garfunkel, entre outros, inscreviam suas composições nos principais festivais que aconteciam nos diversos cantos do Brasil, onde chegavam sempre como favoritos. Aqui e ali iam ganhando prêmios. Por um bom tempo, alguns fizeram disso quase uma profissão. 

No sábado seguinte, marcado para a final, chegamos ansiosos ao Chafic. As apresentações aconteceriam na quadra de esportes, um espaço amplo e coberto que havia no colégio e que tinha um palco numa das extremidades, não sei dizer agora se esse palco era uma estrutura fixa ou montada apenas para o festival. Tínhamos uma torcida considerável. Fora os amigos e alguns parentes, havia muita gente na plateia que torcia pela nossa música, que àquela altura era considerada uma das favoritas aos prêmios em dinheiro que seriam dados aos três primeiros lugares. Tínhamos conquistado também a simpatia de vários dos nossos concorrentes, que diziam abertamente que gostariam de ver a “Encanto feminino” entre as primeiras colocadas.


Entre os festivais de música da época, o de Avaré, no estado de São Paulo, era um dos principais, tanto pelo nível dos concorrentes quanto pela premiação. Moacir Luz soube da qualidade do festival pelo seu amigo Lenine. inscreveu a música "Choro das ondas" e conquistou o quarto lugar. Mais animado ainda, no ano seguinte inscreveu "Alafim", parceria com Aldir Blanc, com a qual ganhou o festival. Como era de praxe, o ganhador participava do  júri no ano seguinte, juri que aliás era presidido pelo Zuza Homem de Mello. Quando Moa soube que o prêmio do ano seguinte seria um carro, ele abriu mão de ser jurado e concorreu de novo. Resultado, ganhou um carro zerinho, que vendeu na manhã seguinte numa concessionária da cidade (fonte: Blog do Moa).

A acolhida do público que lotava aquele espaço foi calorosa, do começo ao final da nossa apresentação. Primeiro o silêncio, todos queriam mesmo ouvir a música. Depois, aplausos e gritos entusiasmados irromperam assim que terminamos de cantar. Não resisti a olhar para o júri, um grupo de aproximadamente dez pessoas, entre professores de arte e música, além de um ou outro músico e de representantes de entidades como o Lions Club local. Por local entenda-se os bairros de Santana e Tucuruvi, então os mais populosos e dinâmicos da Zona Norte de São Paulo. Três jurados anotavam algo em cartões enquanto balançavam a cabeça positivamente.


A música "Encontro das águas", composição de Jota Maranhão e Jorge Vercillo, era uma das concorrentes na mesma edição do festival de Avaré em que Moacir Luz obteve o quarto lugar. Embora tenha perdido grande parte do seu brilho, esse festival continua a ser realizado todos os anos. Neste 2009, o evento chegou à sua 27a. edição. 

Outras músicas também tiveram acolhida calorosa. O nível daquele festival amador era realmente bom. Todos os participantes tinham, como eu, crescido ouvindo música brasileira de muita qualidade, desde aquela produzida para os festivais da Record até os clássicos da época da ditadura. O mercado fonográfico nacional ainda não tinha entrado na fase de lançar modismos musicais. A geração que gostava de música brasileira naquele início dos anos 80 ainda consumia em larga escala a obra dos grandes nomes da MPB, muitos dos quais se encontravam no auge de sua carreira, vendendo centenas de milhares de discos. Uma das músicas concorrentes era particularmente muito boa, uma marcha-rancho com ótima letra e melodia inspirada. Era interpretada por um grupo de bons músicos e pelo autor no vocal, que dava bem conta do recado. Fiquei atento a cada apresentação, e quando elas terminaram, avaliei que brigávamos com pelo menos cinco boas canções, sendo que a marcha-rancho me parecia ser a concorrente mais forte. Eu estava certo.


Neste vídeo, a música "Tempodestino", de Nilson Chaves e Vital Lima, cantada pelos dois com a participação de Leila Pinheiro

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Intervalo - Ney Matogrosso



Ex-vocalista do Secos & Molhados, grupo que marcou época com apenas dois LPs lançados na primeira metade da década de 1970, Ney Matogrosso foi sempre um transgressor. Dono de uma voz incomum, tão aguda quanto límpida, transita com desenvoltura por todos os estilos de música. Vai dos maiores clássicos da MPB ao som regional ou pop, e sempre com muita originalidade e talento. A bela “Viajante”, de Tereza Tinoco, foi um dos maiores sucessos do ano de 1981. Era uma das músicas que mais me pediam para cantar, onde quer que eu estivesse com o violão. No embalo das canções do Lô Borges e do Beto Guedes, que eu ouvia muito e que por isso influenciaram muitas das minhas composições da época, eu costumava ter facilidade para alcançar notas mais altas. De certa forma, isso fez com que eu viesse a desenvolver uma extensão de voz maior do que teria naturalmente, já que meu pai e meu irmão possuem um registro vocal bastante grave. 

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 2


Lucinha Lins (aqui, em foto de Antonio Guerreiro), protagonizou a maior vaia da história da música brasileira. Em 1981, a bela loira, então casada com Ivan Lins, ainda era conhecida apenas como backing vocal dos shows do marido, quando invariavelmente roubava a atenção do público masculino (eu mesmo sou testemunha ocular e cúmplice disso). Pois no Festival MPB Shell daquele ano, último da série que a TV Globo promoveu, a vitória da música "Purpurina", de Jerônimo Jardim, defendida por Lucinha, contrariou o abarrotado Maracanãzinho, que torcia em uníssono por "Planeta Água", de Guilherme Arantes. Além das vaias, atiravam nela abanadores de papelão. Ivan subiu ao palco e pegou na mão de Lucinha, enquanto esta tentava em vão repetir a canção vencedora. 

Os ensaios foram precários, como haveria de ser, mas muito animados, como também haveria de ser. Precários porque não éramos músicos ensaiando, mas sim uma turma de amigos se divertindo de um jeito pouco comum, participando de um festival de música. Acho que só eu e o Joel levamos aquilo a sério, ao nosso modo. Não lembro mais de quem chamamos para fazer parte do coro da "Encanto feminino", mas certamente estavam nele o autor da letra, Joel de Moraes, meu irmão Dario, minha namorada e vizinha na época, a Elaine e... mais dois ou três que não lembro mesmo. Compramos alguns instrumentos de percussão mais acessíveis e que pareciam fáceis de tocar.


Este vídeo é estranho mesmo, mostra um pouco a Lucinha Lins no palco da final do MPB Shell de 1981 tomando um banho de vaias e o parte da apresentação do Guilherme Arantes. No meio, surge um quizz não identificado. Como não encontrei outro registro da história, vai esse.

A vedete era um "pau de chuva", que dava um som lindo na hora dos vocais sem letra. Tínhamos também dois caxixis, além de outras quinquilharias meio improvisadas. A ideia era fazer um som que remetesse a ruidos da natureza, criando um clima meio natureba, mas principalmente ajudar o violão a preencher possíveis vazios sonoros. Montei a estrutura da música, definimos juntos os momentos em que o coro entrava e gostamos do que fomos capazes de conseguir, sem conhecimento musical. Mas é claro que a música era o que nos dava confiança. "Encanto feminino" tinha carisma. Melodia e letra contavam uma história envolvente e bonita. Era chegar na eliminatória e tentar dar o recado sem errar, porque tínhamos certeza de que nosso "produto" era bom.


Lula presenteia o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, com um legítimo pau de chuva, instrumento de percussão de origem indígena, provavelmente da região amazônica. Ao ser inclinado, pequenas miçangas no interior produzem um som que se assemelha ao de água corrente.

Com toda essa expectativa em torno da "Encanto feminino", o samba "No fundo do fundo" ficou em segundo plano. E bota segundo plano nisso. Meu violão se encarregaria de fazer a marcação principal, eu cantaria e o Joel, o Dario e mais um amigo que também não me recordo quem era ficariam incumbidos de fazer o vocal e algo o mais próximo que fosse de um batuque. Para isso, emprestamos um tamborim e, se não me engano, compramos um agogô., Batíamos naquilo como quem está chamando chuva, mas estava valendo, pois não tínhamos mesmo nenhuma experiência com samba. Mas o samba era bom, eu tinha feito em homenagem à Maria, como já contei aqui num post anterior, minha amiga que sambava lidamente e pela qual tive uma paixão não revelada. Também já contei aqui que essa música é uma das raras que sobreviveram às que fiz naquela época. Então, se a gente também não errasse, podia  até ser que o samba fosse para a final.


A década de 60 tinha ficado para trás, mas o início dos anos 80 parecia querer provar que o interesse por festivais de música brasileira permanecia vivo.

Eram duas eliminatórias em dois sábados seguidos, com 15 músicas cada. Participamos de ambas, na primeira com "Encanto feminino"; na segunda, com "No fundo do fundo". A final seria no terceiro sábado, reunindo as 6 classificadas de cada eliminatória, ou seja, 12 músicas disputando os três primeiros lugares, fora o prêmio de melhor intérprete, que incluia até as não classificadas. A "Encanto" foi muito bem recebida pela platéia. Ao final de todas as apresentações, recebemos a notícia da classificação para a final. A comemoração foi grande. No sábado seguinte, a "No fundo" não provocou tanto entusiasmo, mas foi elogiada. Por sugestão dos organizadores do evento, um grupo de samba que participava do festival se ofereceu para me ajudar na apresentação, fazendo a marcação do ritmo. Por um misto de timidez e soberba, agradeci mas declinei da oferta. Pura estupidez. Fiquei sabendo depois que os jurados lamentaram o fato do samba ser tão bom mas ter sido mal executado. O grupo de sambistas emplacou a música deles, um samba empolgante e impecavelmente conduzido. "No fundo" ficou no caminho. Mas estaríamos de volta no sábado seguinte para defender a "Encanto". A briga ia ser boa. Havia concorrentes com belas canções, músicos e compositores acostumados a frequentar festivais amadores. Para nós, tudo era lucro.


Em 1985, a TV Globo inventou um novo festival, que recebeu o pretensioso nome de Festival dos Festivais. A canção vencedora foi "Escrito nas estrelas", de Carlos Rennó e Arnaldo Black, defendida pela matogrossense Tetê Espindola. Com sua voz poderosa e timbre pra lá de incomum, Tetê emitia, sem saber, o canto do cisne dos grandes festivais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 1



1981 ainda não terminara, eu ainda não havia atingido a maioridade civil, portanto ainda não estava livre de ser convocado para o exército. Sem conseguir trabalho, eu continuava passando os dias fazendo minhas canções. Na maioria delas eu procurava me aproximar das coisas que ouvia, por isso elas iam do som dos mineiros do Clube da Esquina aos sambas do Chico Buarque, passando por Milton Nascimento, MPB-4, Boca Livre, entre outras referências. Ia compondo, mostrando pros amigos e recebendo elogios. Nessa época, meu amigo Joel se apaixonou por uma garota de um bairro próximo ao nosso. Na verdade, a Vila Nivi era grudada na Vila Gustavo, onde eu morava, que por sua vez era vizinha da Vila Medeiros, endereço do Joel, todos bairros da Zona Norte paulistana, caracterizados como reduto de classe média baixa. Havia alguns núcleos de exceção, famílias com poder aquisitivo maior que a maioria dos que viviam por ali, e esse era o caso da família da Estela. A casa dela era ampla, bonita, e ficava na esquina de uma rua sem saída, onde a maioria das casas era de bom padrão. Durante um certo tempo, a casa da Estela serviu de QG para uma turma de amigos e amigas. Nos reuníamos ali nas noites de sábado e tardes de domingo para ouvir discos de MPB, conversar, beber um pouco, nos divertir sem gastar quase nada. E também para namorar. Bem antes de me apresentar à sua nova paixão e da nossa turma se formar, o Joel me mostrou um poema. Era dedicado à Estela, e narrava com delicadeza o que seria, na visão dele, a passagem da menina para a mulher. O poema chamava “Encanto feminino”, e ele pediu que eu musicasse aquilo.

O garrancho que ainda guardo mostra a data desta parceria com o Joel: julho de 1981.

Eu ainda não tinha feito melodia para a letra de outra pessoa. Estava habituado a pensar nas duas coisas ao mesmo tempo. Muitas vezes, aliás, a letra me apontava o caminho que a melodia devia seguir. Mas encarei o desafio e não demorei nada a mostrar o resultado. Tive que mexer um pouquinho aqui e ali, adequar uma e outra palavra ou frase para que tudo coubesse na métrica da música. Também acrescentei alguma coisa na segunda parte. Ele gostou muito do que ouviu. Era uma bossa-nova com andamento lento. Começava com um vocal bem aberto e melodioso, que procurava sugerir o despertar de uma manhã de sol. Tão marcante ficou essa abertura, que adotei o vocal como uma espécie de refrão, repetindo-o no meio e no final da música. Usei e abusei de acordes com sétima maior, que davam uma sonoridade expansiva muito bonita e adequada ao clima da letra. Para cantar a música, minha voz ia lá em cima, beirando o falsete, e eu já imaginava um apoio de timbres masculinos e femininos em certos momentos da canção, principalmente na abertura.



Todos que ouviram gostaram muito da música, e ela realmente ficou bonita. Decidimos inscrevê-la no festival de MPB de um dos principais colégios da Zona Norte, o Chafic – Centro de Habilitação, Filosofia e Cultura. Era um festival muito concorrido, estava em sua terceira edição, mas sabíamos que a música tinha força, então comecei a conceber o arranjo e a execução do que íríamos apresentar. Os amigos mais próximos fariam o coro e a percussão. Eu cantaria acompanhado do meu inseparável Di Giorgio. Nesse festival havia um outro atrativo: eles dariam um prêmio para o melhor intérprete. Gravei a música apenas com voz e violão em uma fita cassete e fui ao colégio me inscrever. Na bagagem, levei também um samba só meu, que havia feito em segredo para a minha amiga Maria, dois meses depois de compor a melodia da Encanto feminino", chamado “No fundo do fundo” (calma, não é nada disso que você está pensando). A sorte estava lançada. Era esperar pela peneira inicial dos jurados para saber se alguma delas seria classificada para as eliminatórias. Havia mais de duas centenas de canções inscritas, estar entre as classificadas já seria uma vitória. Até que veio a notícia. Foram duas vitórias. As duas músicas tinahm sido classificadas. Aí, deu aquele frio na barriga. Seria a primeira vez que eu cantaria em voz solo diante de uma platéia duas músicas minhas. Mais do que isso, eu não fazia a menor ideia de como defenderia o samba, já que eu e meus amigos mal sabíamos batucar numa caixa de fósforos.



"Daphnis et Chloé", obra composta para balé pelo francês Maurice Ravel, estreou em Paris em 1912. Esta é a segunda e mais popular parte da peça. É uma das músicas mais bonitas que conheço e, arrisco dizer, uma das composições mais inspiradas de todos os tempos. Sei que a intenção do autor não foi essa, mas sempre enxerguei nessa música a mais perfeita narrativa do nascer do sol.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Teste na Polygram - parte final


Nos anos 1970, além das chamadas canções de protesto, a maioria delas censuradas, e dos artistas românticos, muitos egressos da Jovem Guarda, as rádios do país foram invadidas por músicas melosas na língua inglesa. Nada muito surpreendente, numa época em que a moda americana da disco music chegava com tudo, a não ser por um detalhe: essas músicas eram cantadas por artistas brasileiros. Outro detalhe: o público não fazia a menor ideia disso. O início dos anos 80 ainda sofreria com os ecos dessa escrita das músicas internacionais cantadas por brasileilros, mas agora o que fazia sucesso eram as versões dessas músicas. Sem muito critério, muitas vezes aproveitando apenas a sonoridade da palavra ou da frase para adaptar novas letras em português, sucessos americanos eram requentados e despejados a granel, principalmente nas vozes de cantoras que eram presença certa nos principais programas de auditório da TV brasileira.


"Don't let me cry", sucesso de 1973 cantado por Mark Davis, o nosso conhecido Fábio Junior

No dia combinado partimos, eu e a candidata a cantora, para o teste que ela tinha marcado na Polygram. Ensaiamos minha música por alguns dias, e ela tinha chegado ao melhor que podia, o que não significava nada muito convincente. Eu havia reservado a mim o papel de coadjuvante na história. Sinceramente, não me sentia preparado para ir lá “mostrar minha música”. Naquele momento, não passava por minha cabeça investir numa carreira de compositor, até porque tinha muito pouca coisa ainda e nenhum conhecimento musical que me desse alguma segurança. Fazer músicas era para mim apenas uma nova forma de expressão, que eu usava para driblar a timidez atávica. Subi o elevador do prédio em que ficava a poderosa Polygram com meu violão a tiracolo apenas para acompanhar a moça. Não esperava nem ser muito notado, como de fato não fui. A não ser por dois detalhes.


"If you could remember", com Tony Stevens, que na verdade era o cantor Jessé

A sala era grande, o executivo tinha todo o jeitão de um executivo. Gravata escura, camisa branca com os punhos dobrados, uma poltrona confortável, uma mesa enorme, e nós dois sentados em duas cadeiras em frente a ele. Depois de um ligeiro prólogo em que ela avisou que cantaria uma música minha, ele pediu que começássemos. Antes que eu fizesse soar o acorde Lá maior com sétima, ele interrompeu: "Não é samba, não, é? Porque samba é lá na sucursal da gravadora no Rio". Não, não era samba, então tudo bem. Blém! "Não, peraí, primeiro afina o violão, né?" E quem disse que eu conseguia afinar o violão sem meu diapasão por perto? Ele percebeu e pegou o instrumento de mim. Com 5 ou 6 movimentos, parecia tudo em ordem. Pronto, devolvido o violão, vamos lá.


Mauricio Alberto, o Morris Albert, e seu estrondoso sucesso "Feelings". Esta música foi regravada milhares de vezes em duas dezenas de idiomas, inclusive por cantores como Ella Fitzgerald e Jonny Mathis, e vendeu 150 milhões de cópias em 50 países. Em 1988, um tribunal americano considerou as primeiras notas de "Fellings" iguais às de "Pour Toi", canção composta nos anos 50 por Lou Lou Gasté. Morris Albert foi então condenado por plágio, e 3 milhões de dólares arrecadados em direitos autorais nos EUA foram repassados integralmente ao francês.

Ela cantou minha música como tínhamos ensaiado. E como eu previa, nenhum brilho, nada que sugerisse nada, a não ser que não devíamos estar ali. Terminamos. Alguns míseros segundos depois e ele vaticinou, sem meias palavras: "Você não serve pra ser cantora. Se tivesse uma voz mais forte e afinada, poderia gravar versões, já que é uma garota bonita e atraente (ela tinha saído de casa com uma mini-saia que não havia como meu violão manter a afinação), mas não tem voz pra isso". E prosseguiu: "Mas a música eu gostei, você tem mais?" Não, eu comecei a compor agora, respondi quase sumindo na poltrona. "Pois leva jeito", disse ele nos dispensando e agradecendo a visita. Terminava ali o sonho daquela moça de ser cantora. Mas a música era realmente boa. Até hoje sei que ela é boa, embora sua estrutura seja muito simples e não tenha nada que ver com o que faço e ouço atualmente. Voltamos para a Vila Gustavo como viemos, de ônibus e metrô, mas agora quase sem falar um com o outro. Ela realmente ficou triste. Eu também, apesar do elogio que ouvi. Continuamos amigos por algum tempo e ela continuou gostando das músicas que eu fazia. Até que nunca mais nos vimos.


A onda de canções estrangeiras que passaram a predominar nas rádios brasileiras, deu origem a várias músicas que reivindicavam um maior espaço para as produções nacionais. Alcione gravou "Não deixe o samba morrer" em 1975, música que se tornou tema do programa "Alerta Geral", exibido na TV Globo de março de 1979 a maio de 1981. Comandado pela própria Alcione, o programa tinha como mote justamente a defesa da MPB e de seus artistas.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Intervalo - Rita Lee


A paulistana Rita Lee Jones, filha de um imigrante norte-americano e de uma neta de italianos, fez parte de grupos musicais desde a adolescência. De um desses grupos, que se fundiu com os remanescentes de outro, nasceu O Konjunto, que por sugestão do cantor Ronnie Von mudou de nome para Os Mutantes. Uma das bandas mais originais da música brasileira, Os Mutantes acompanharam Gilberto Gil no III Festival de MPB da Record, em 1967, fazendo os vocais e guitarras da antológica “Domingo no parque”, segunda colocada no festival, atrás da também legendária "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam. Rita Lee, que foi casada com Arnaldo Baptista, um dos integrantes d’ Os Mutantes, deixou o grupo em 1972, prosseguindo em sua mutação musical nos anos seguintes, primeiro formando dupla com Lúcia Turnbull, depois montando outra banda, a Tutti Frutti, que teve como maior sucesso a música “Menino bonito”. No início dos anos 1980, em parceria com o músico e compositor carioca Roberto de Carvalho (com quem vivia desde 1976), Rita estourou no país inteiro. Em 1981, todas as oito faixas do disco que havia lançado no ano anterior ficaram entre as mais executadas. A roqueira finalmente conquistava o reconhecimento da crítica e do público e se tornava uma unanimidade nacional.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Teste na Polygram - parte 1


Em 1981 eu completaria 18 anos de idade. O primeiro efeito civil de tal efeméride era poder, ou melhor, ser obrigado a tirar o Título de Eleitor. Uma providência que só não se mostrou totalmente inútil num país que vivia uma ditadura porque as coisas começavam a mudar. No ano seguinte, houve eleições para governador de estado em todo o Brasil. Sendo eleitor em São Paulo, e já assumidamente de esquerda, não lembro se votei no sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva ou no senador Franco Montoro, que acabou eleito pelo PMDB. Eleição que, aliás, abriu uma vaga  no Senado Federal que foi preenchida pelo sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

O grupo “Sangue Novo” se desfez. Acho que não houve uma razão específica. O fato é que a fase da vida em que estamos prestes a atingir a maioridade é particularmente inconstante. Estávamos terminando o ano de 1980. Com a vitória naquele festival com a música “Hino aos trabalhadores”, da qual me tornei parceiro acidental, e a mais do que evidente vocação que eu e meu irmão demonstrávamos ter para a música desde pequenos, meu pai resolveu separar parte das economias da família – que àquela altura já estavam melhorando – para nos presentear com um violão. Era um Di Giorgio modelo “Estudante nº. 16”, um para os dois. Perfeito para que a gente se animasse com a possibilidade de tocar as músicas que gostávamos de ouvir e cantar. Combinamos um revezamento, um tempo x para que cada um pudesse se dedicar ao instrumento. Logo ficou claro que eu tinha muito mais paciência que meu irmão para aprender os acordes e os ritmos. Minha verdadeira intenção ia além de tocar e cantar os sucessos do rádio. Eu queria compor minhas próprias canções. Mas antes de tudo, eu tinha uma promessa a cumprir. Como relatei anteriormente aqui, quando eu tinha 12 anos de idade eu havia prometido que, assim que pudesse ter um violão, a primeira música que eu ia aprender seria “A banda”, do Chico Buarque. Eu não fazia a menor idéia de como executar a canção, então fiz o que faziam praticamente todos que naquela época queriam tocar violão mas não podiam pagar uma escola de música ou um professor particular: corri para uma banca de revistas e comprei um exemplar da “Violão & Guitarra”, exatamente uma edição especial que trazia algumas das principais músicas do Chico devidamente cifradas. A harmonia estava toda lá, e os acordes eram relativamente simples, o que facilitou muito meu trabalho. Em poucos dias eu já conseguia tocar e cantar “A banda” para quem arriscasse ouvir.


Pra minha sorte, a harmonia da "A banda", que vinha na revista Violão & Guitarra (a imagem acima foi escaneada da edição original, que guardo até hoje), não trazia nenhuma dificuldade, mesmo para quem, como eu, apenas engatinhava no instrumento. Outra música que aprendi de cara foi "Pra não dizer que não falei das flores", do Geraldo Vandré. Esse clássico das canções de protesto dos anos 1960 era presença obrigatória no repertório de qualquer um que tivesse seu violão e gostasse de MPB, já que pode ser cantada e acompanhada com o uso de apenas dois acordes básicos: Am (lá menor) e G (sol maior).

Nessa época, as musas conspiraram a favor da minha iniciação musical. Depois de quase um ano sem evoluir na maçante rotina do Bradesco, fui gentilmente demitido. Eu já tinha 17 anos de idade, ou seja, a época de servir o exército se avizinhava, e empresa nenhuma queria manter em seu quadro um rapaz nessas condições. Eu não fazia ideia de que a legislação trabalhista me protegeria, caso eu entrasse com uma ação para anular a demissão, e na verdade não dei a menor bola para isso, pois não suportava mais aquele trabalho. Tentei arranjar alguma coisa sem registro, cheguei a ser aceito como vendedor numa grande loja de calçados que havia na principal avenida do meu bairro, mas às 8 horas da segunda-feira em que cheguei lá, animado para o meu primeiro dia na minha nova ocupação, a gerente que havia fechado comigo se desculpou dizendo que o dono não queria correr o risco de empregar alguém informalmente. Fiquei frustrado, pois precisava continuar trabalhando, já que terminara o colegial e pretendia entrar na faculdade. Sem recursos para pagar um cursinho eu dificilmente conseguiria passar no vestibular da USP, única opção para continuar estudando gratuitamente. Bem que tentei, mas não passei nem na primeira fase da Fuvest, tamanha a defasagem que eu tinha em relação a quem vinha de escolas particulares, muitos deles com reforço de um cursinho no último ano do colegial. Embora naquela época houvesse bem menos vestibulandos que hoje, havia também poucas faculdades e bem poucos cursos, por isso a concorrência era ainda maior, e entrar numa das principais faculdades de São Paulo, mesmo nas particulares, como PUC e Mackenzie, era um feito que se comemorava muito. Tive, então, a ajuda do meu pai, que garantiu para mim a mensalidade de um curso pré-vestibular. Estudei no Poli, cursinho mantido pela Escola Politécnica, que por ter seu custo subsidiado pela USP era mais acessível que os campeões de aprovação Anglo e Etapa.


A música "Como o mar no cais" é provavelmente a primeira que compus e registrei no papel e na memória. Foi feita às vésperas do Natal de 1980, segundo a data visivel na parte superior deste manuscrito original. A sequência de acordes da harmonia é a mais simplória possível, mas a letra, a meu ver, não é de todo ruim, especialmente para quem mal havia completado 17 anos de idade: "Tens a cor da lua triste / entristece a minha noite / fujo e nada de partida / e em meio corpo é como açoite / em minha vida / fica como o mar no cais". A melodia também é interessante, considerando meu estágio na época. Curiosamente, trata-se de um fado.  

Desempregado, ao invés de estudar eu me trancava no quarto quase o dia todo para tocar violão. Como sempre acontecera até então, eu não tinha um espaço só meu. Dividia com meu irmão e minhas duas irmãs um quarto com dois beliches. Meu irmão estava na Aeronáutica. Ficou por lá três anos, saindo depois que desistiu de dar sequência na carreira de ofical da força aérea. Eu só queria saber de tocar violão e compor. Pegava os acordes que aprendia e saía fazendo músicas. A maioria era de qualidade duvidosa, mas eu não me importava com isso e ia anotando tudo. As melodias eu registrava na memória, já que não tínhamos um gravador portátil em casa. Havia dias em que eu compunha três músicas. Também ia aprendendo várias canções de sucesso, razão pela qual comecei a ser convidado para ir a inúmeras festas e reuniões de amigos e de amigos dos amigos, desde que, claro, eu levasse o violão. Minha timidez ficava escondida atrás de um repertório de MPB que agradava a maioria das garotas e rapazes que me ouviam, mas eu só mostrava minhas próprias canções para poucas pessoas. Uma delas foi uma "amiga" (assim mesmo, entre aspas) do meu irmão, que tinha a pretensão de se tornar artista. Por intermédio de um cantor muito popular da época que ela havia conhecido, o Dudu França, ela conseguiu um teste na Polygram, a principal gravadora de então. O teste consistia em cantar alguma coisa para um diretor musical do selo, num dia qualquer da semana seguinte. Ela me perguntou se eu toparia acompanhá-la no teste tocando violão. Eu respondi que iria. Ela completou dizendo que no teste queria cantar uma música minha, uma das que ela mais gostava, chamada “Entre sol e lua”. Mesmo sem ter exata noção do que aquilo significava ou poderia significar, eu curti muito aquela ideia. A moça era lourinha, bem bonitinha, bem bacaninha e até bem gostosinha, porém, eu bem sabia, ela não cantava era nada. Então, nos pusemos a ensaiar quase todos os dias.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Um passo além da tristeza



Muita gente acredita que todos temos alguma missão a cumprir por aqui. Gosto de acreditar também. Isso tem um pouco a ver com o conceito de destino, mas não o destino no sentido etéreo, e sim aquele que construimos e fazemos acontecer. Mas e os animais domésticos que se tornam nossos "bichos de estimação"? Será que eles também têm uma missão a cumprir? Vejamos, eles nos fazem companhia, alegram lares, protegem, divertem crianças, acalentam idosos e enfermos, melhoram a vida de pessoas depressivas, amam com uma sinceridade rara nos humanos, entre outras virtudes. Desde ontem, tenho ouvido amigos dizerem que o Preju tinha uma missão e que ela se encerrou, por isso ele partiu. É uma teoria meio louca, mas por que não? Uma coisa é certa, do momento em que ele apareceu no quintal de casa até hoje, vários cães e gatos abandonados cruzaram nosso caminho, meu e da Ariane, e fizemos o que foi possível para ajudá-los, inclusive adotamos alguns. Antes, isso não acontecia, ou melhor, não víamos acontecer. O Preju nos deu olhos para esse problema. Se essa era a missão dele, ela foi cumprida com louvor, e somos muito gratos a ele por isso. Não cura a perda, mas diminui a dor. A propósito, assista ao contundente vídeo acima. É de uma campanha contra o abandono de animais. A analogia não poderia ser mais perfeita.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma tristeza imensa



Quem diria, Preju? Quem diria que aquele filhotinho que brincava com os ramos do pinheiro do meu quintal, naquela manhã de quase 9 anos atrás, iria se tornar meu grande companheiro? Quem diria que seu nome, inventado num momento “engraçadão” meu, ajudaria a compor em você um carisma tão grande e único? Quem diria que você não apenas me ensinaria que adotar bichos é um grande barato, como também ensinaria a todas as pessoas que o conheceram, mesmo as mais reticentes e preconceituosas, que gatos são, sim, animais fantásticos?

Quem diria, Preju? Quem diria que um dia você pularia no quintal do vizinho para dar uma lição em três cães que, uma semana antes, tinham machucado a Juma, a gatinha estressada paulistana, sua grande paixão felina desde o primeiro dia em que a trouxemos para te fazer companhia? Quem diria que você cresceria tanto a ponto de causar espanto a todos pelo seu tamanho? Quem diria que se tornaria um bicho tão bonito e confiante, absolutamente seguro do amor que tínhamos e sempre teremos por você?

Quem diria, Preju, que você viria a ser o bicho mais amado e querido do mundo, entre tantos que são tão amados e queridos pelo mundo afora? Quem diria que você colaboraria indiretamente para que eu e a Ariane passássemos a dividir o mesmo teto? E que seria diretamente responsável pela existência em nossas vidas dos gatos Juma, Gigi, Felini, Rajah e Pagu, e dos cães Guapo, Gaia, Polaco e Alma?

Quem diria, Jeju, que você ia encher nosso sobrado e depois nossa chácara de tanto pelo e carinho? Que agarraria meu braço nos momentos de “tô doidão” e me faria rir, mesmo me deixando todo arranhado? Quem diria que você seria o primeiro e único bicho a assinar um artigo no site do Clube de Criação do Paraná? (http://www.ccpr.org.br/interna.php?pagina=pontovirgula&tpg=2&id=158)

Quem diria que o simples pensamento em você e no seu amor verdadeiro me ajudaria, como muitas vezes me ajudou, a enfrentar alguns dos momentos mais difíceis por que passei nesses últimos anos?

Quem diria que um gato seria tão especial a ponto de fazer um hospital veterinário inteiro torcer por ele? A ponto de uma veterinária experiente chorar ao telefone?

Quem diria, Jeju, que o amor seria tanto e o tempo tão pouco?

Quem diria que a tristeza que sinto hoje seria assim tão imensa? E que a felicidade por ter convivido com você nesses quase 9 anos seria ainda maior que qualquer tristeza da vida, mesmo essa tão imensa que sinto hoje?

Vai em paz, meu lindo. Vai, que quando chegar a minha vez, eu que nunca morri de amores pelo fim de nada, vou conseguir embarcar com mais tranqüilidade, porque sei que irei pro mesmo lugar em que você está agora. Porque sei que vou encontrar o mesmo gato dorminhoco, brincalhão, bonachão, charmoso, “gente boa”, mimado, feliz e, acima de tudo, o grande companheiro que você sempre foi - e sempre será - pra mim.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Intervalo - Boca Livre


Em 1979, o grupo Boca Livre quebrou um paradigma na indústria fonográfica nacional. Resolveu driblar os contratos rígidos que as gravadoras impunham aos seus artistas e lançou seu LP de estréia em uma produção independente. O disco estourou em vendas e emplacou praticamente todas as faixas nas paradas de sucesso do país inteiro. Dias antes do lançamento li na Folha o artigo de um crítico chamando a atenção para a qualidade do trabalho deles, inclusive para o fato da distribuição ser irregular, por não estarem dispondo da estrutura comercial de uma gravadora. Então, corri encomendar um álbum pra mim na loja de discos mais próxima do meu trabalho. 



Uma das 10 músicas brasileiras mais tocadas no ano de 1980 foi a singela "Toada", de Zé Renato, Claudio Nucci e Juca. Foi executada tão exaustivamente que confesso que hoje não tenho muita paciência pra ouví-la. Mas esse vídeo da época com Mauricio Maestro, Zé Renato, Cláudio Nucci e David Tygel, a primeira formação do grupo, vale muito a visita.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Se for cantar, não beba



"Rabo-de-galo" é a tradução literal de “cocktail”, termo em inglês há tempos aportuguesado para "coquetel", e que define uma mistura de bebidas que geralmente envolve uma de sabor mais seco e outra mais adocicada. Aprendi com meu pai a gostar de um bom rabo-de-galo, esse típico drinque dos bares de periferia que leva cachaça e vermute. Na versão paulistana, ao invés de vermute se usa Cynar, uma aguardente composta, feita à base de alcachofra. Pegue uma dose de uma cachaça de qualidade e misture a ela uma mesma parte de Cynar. Se quiser, acrescente uma pedra de gelo. Simples assim. Mas pare na terceira dose, no máximo. Ou você se arrependerá amargamente.

Semanas antes do festival que ganhamos com a música “Hino aos trabalhadores”, nos inscrevemos para participar de um concurso musical diferente. Diante da profusão de festivais de colégio, em que os candidatos inscreviam músicas próprias e inéditas, aquele era uma espécie de karaokê. Os inscritos deveriam defender músicas conhecidas, desde que fossem músicas brasileiras.  Landinho, nosso violonista e compositor oficial, portanto, o líder natural do “Sangue Novo”, estudava no colégio promotor do festival. Depois de algumas reuniões em que a música dos mineiros do "Clube da Esquina" predominaram, decidimos nos inscrever naquele festival para interpretar “Cio da terra”, a belíssima canção composta por dois gênios da raça: Milton Nascimento e Chico Buarque. Feita nos moldes das chamadas “músicas de trabalho”, a melodia sendo repetida em todos os versos, “Cio da terra” fez parte de um compacto-simples lançado por ocasião de um show comemorativo ao Dia do Trabalho, em 1977. Estávamos confiantes da nossa escolha e tínhamos certeza de que entraríamos no festival para ganhar. Tal condição foi reforçada na audição eliminatória. Não havia público, todos cantaram reservadamente para os jurados, uma semana antes da final. Fomos classificados com louvor, tidos quase como imbatíveis pela organização do negócio. No sábado seguinte, entretanto, tudo ia mudar. Do vinho para a água. Ou pior que isso.



No ano anterior, 1979, o Festival de MPB da TV Tupi havia revelado um compositor e cantor bastante original: Oswaldo Montenegro. Seu vozeirão grave de bons recursos, suas interpretações dramáticas, além de composições personalíssimas, fizeram com que o brasiliense tivesse uma carreira meteórica, tanto no seu surgimento quanto na sua saída do circuito. Eu e meu irmão gostávamos muito de cantar as músicas do cara. E mandávamos bem, embora elas não fossem exatamente fáceis. Foi principalmente por esse motivo que conseguimos assumir como vocalistas do “Sangue Novo”.


Seria a primeira vez que eu, o Joel e o Dario, subiríamos em um palco diante de um público. Estávamos quase apavorados. Imagine se a gente acordasse rouco no sábado que vem. Nem pensar, isso não poderia acontecer de jeito nenhum. Então, embora incensados na eliminatória, saímos dali e fomos direto para uma farmácia. Pedimos ao atendente que nos desse uma pastilha contra a rouquidão. Aproveitando-se o fato de estar atendendo um bando de garotos que não tinham a menor noção do que estavam fazendo, o atendente nos vendeu a pastilha mais cara que tinha, um antibiótico. Consumimos aquelas pastilhas religiosamente, duas por dia, pela semana toda. Bingo! No sábado acordamos roucos de dar dó, os três. Mas o pior não foi isso. O pior foi algum de nós ter tido a idéia de pararmos num boteco antes de chegar no colégio.



Tirando as composições do Landinho e do Alexandre, nosso repertório era quase todo composto pelas músicas dos mineiros do "Clube da Esquina". Eles misturavam a sonoridade das festas religiosas de Minas Gerais com timbres interioranos e, para arrematar, um belo toque de Beatles. Eram todos amigos de frequentar a casa uns dos outros, e tinham no já consagrado Milton Nascimento uma espécie de guia, de mentor. Mas quem realmente lançou luz sobre o trabalho deles foi Elis Regina, ao gravar as músicas daquela turma, especialmente dos irmãos Borges, Márcio e Lô. Como disse uma vez Elis, eles faziam "músicas solares".

Meio da tarde de um sábado, meia dúzia de guris carregando pelas ruas vários instrumentos musicais e um saco de ansiedade. E se a gente tomasse alguma coisa pra relaxar? Claro, só uma, pra dar uma acalmada, não vai fazer mal a ninguém. Encostamos o umbigo num pé-sujo qualquer. Não sei quantos rabos-de-galo bebemos e bebi. O fato é que saímos de lá balão. Chegamos à final do festival trançando as pernas. Não deu outra, quando anunciaram os favoritos da noite, subimos ao palco chamando Jesus de Genésio. Foi um tremendo fiasco. Eu me sentia o próprio Mick Jagger. Peguei o microfone e apresentei um a um do grupo. Depois, falei uma bobagem qualquer contra a ditadura e começamos nossa apresentação. Depois de uma introdução acústica, o Alexandre soltava o bandolim e pegava o baixo elétrico. Assim que ele começou a tocar o baixo, cismei de caminhar no palco e pum!, tropecei no cabo, desligando o instrumento e interrompendo nossa apresentação. Recomeçamos em seguida, mas essa presepada e a desafinação dos três vocalistas, que nunca tinham cantado num microfone de verdade, e por isso achavam que tinham que gritar para serem ouvidos, foram mais do que suficiente para justificar as vaias. Nossa amiga Maria estava lá na platéia, compondo nossa pequena e envergonhada torcida, e tinha levado uma amiga de nome Fátima, uma garota interessante e meio bicho-grilo, de longos cabelos dourados. Depois do fiasco, a Fátima veio me dizer que eu tinha luz própria. Pronto. Foi o suficiente pra eu me reanimar e sugerir que voltássemos ao pé-sujo para terminar o que tínhamos começado. E lá fomos nós, rindo um da cara do outro.




segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O "hino do PT" - final


Quase dois anos antes, eu tinha tido um breve contato pessoal com o Lula, o Lula presidente do Sindicado dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Ele estava no auge de sua carreira como líder sindical, liderança que, aliás, levou-o à prisão nesse mesmo 1980. Nesse contexto, fui assistir à peça “Braços cruzados, máquinas paradas”, escrita e encenada por algumas das irmãs e irmãos da Inês de Castro, a jornalista que tinha me levado ao show da Elis. O enredo da peça era justamente um retrato sem retoques da repressão sofrida pela classe trabalhadora, que começava a se organizar politicamente. Era uma montagem tensa, pesada, porém esperançosa. A ditadura começava a dar mostras de enfraquecimento. Naquela noite, Lula estava na platéia, e no final do espetáculo tomou parte de uma pequena roda de pessoas, onde estavam os atores, diretores e autores da peça. Eu também estava ali. Lula, que naquela época jamais poderia sequer sonhar com o que o destino reservava a ele, era a presença mais festejada. Entre coisas que não me lembro, ele se saiu com uma frase que deu muita alegria para o pessoal da produção: “olha, vou dizer pra vocês que eu não gosto de teatro... não gosto e não vou... mas gostei desse negócio aqui, viu, gostei demais... a coisa acontece desse jeito mesmo que vocês mostraram”.

O sujeito que nos chamou para o canto era representante do nascente PT, o Partido dos Trabalhadores. Alguém tinha visto a gente se apresentar na semifinal e dito a ele que deveria estar lá para nos conhecer, e ele foi. O PT estava sendo criado a partir de lideranças sindicais, oriundos em sua grande maioria dos maiores sindicatos de São Paulo. Contava também com a presença de intelectuais de esquerda, de lideranças católicas ligadas à Teologia da Libertação e com a simpatia de políticos do antigo MDB, como Ulisses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e Franco Montoro. Para conseguir a filiação de populares,  pequenos showmícios eram improvisados na periferia de São Paulo. Sobre caçambas de caminhão, ou mesmo o teto de uma Kombi, líderes da comunidade local e futuros integrantes do PT discursavam para arregimentar pessoas, que tinham apenas que preencher uma ficha ali mesmo para formalizar a filiação. Enquanto isso, sobre uma mesa desmontável vendia-se camisetas, broches no formato da estrela vermelha, bonés, diversos souvenires que já haviam se tornado febre, especialmente entre os estudantes. Valia tudo para levantar fundos para a nova legenda. Entre um discurso e outro, chamavam ao palco uma atração musical. O "Sangue Novo" era uma dessas atrações. "Agora, com vocês, os meninos que fizeram o Hino do PT!”, era como costumavam nos anunciar. E lá íamos nós com os macacões de frentista, as marmitas, os violões e as três vozes cantar em uníssono “Levantando de manhã / lavo o rosto pra acordar / vou catando minha marmita / pra ir logo trabalhar / pego um bus tão apertado / que nem dá pra se mexer / vou passando espremidinho / dá licença, eu vou descer / nós somos trabalhadores e cada dia trabalhamos sempre mais...”.


Nesse tempo em que trabalhei ao lado do Edifício Copan, uma figura com quem topei com muita frequência pelas ruas foi Plínio Marcos. A região era próxima ao Teatro Oficina e ao lendário Teatro de Arena, um dos principais palcos de resistência da classe artística contra o regime militar. Plínio estava sempre a bordo de um chinelão de couro, e tinha uma barriga que chegava cinco minutos antes. Ele oferecia seus famosos livrinhos, editados de forma independente. Comprei vários deles, que o dramaturgo autografava satisfeito, dizendo sempre a mesma frase: "prometo morrer logo pra valorizar o livro".

Foi assim que, involuntariamente, ajudei a criar o primeiro e extra-oficial Hino do PT. Na verdade, o "Hino aos Trabalhadores" nunca foi um hino de fato do PT, nem sequer extra-oficialmente. Mas naqueles pequenos e paupérrimos showmícios, realizados geralmente nas tardes de sábado, era assim que a música era apresentada e bem recebida. Mesmo tendo participado dessa história, nunca me filiei ao PT. Durante muitos anos ostentei a estrela vermelha na lapela, o que foi uma consequência natural para quem cresceu sonhando com um país diferente daquele que conhecera desde criança. Um país onde o regime político vigente fosse o democrático, a liberdade de expressão fosse um direito inquestionável, as opiniões políticas fossem respeitadas, as condições de vida e trabalho das pessoas mais humildes fossem melhores do que eram. Pelos anos seguintes, a política esteve sempre muito próxima de mim, principalmente quando entrei na universidade, em 1981.



O regime militar dava mostras de estar vivendo seu epílogo. A lei de anistia havia sido assinada em junho de 1979, fazendo com que os exilados recuperassem seus direitos políticos e começassem a voltar ao país. Mesmo assim, ainda havia algumas batalhas a serem vencidas. A principal delas estava ainda distante: a restituição de eleições diretas em todos os níveis. A verdade é que os militares perdiam cada vez mais prestígio, até diante da parcela da opinião pública que os havia apoiado nos primeiros anos do golpe de 1964. Os intelectuais, os estudantes e a classe trabalhadora organizada não estavam mais dispostos a viver amordaçados. O povo brasileiro começava finalmente a sair às ruas para reivindicar um novo Brasil. Esse clima de mudança, é claro, aparecia em muitas das músicas da época. Uma das mais representativas foi "Novo tempo", de Ivan Lins e Vitor Martins.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Intervalo - Rio 2016



"Samba do avião" (Tom Jobim), com Tom, Miúcha e Toquinho. Show realizado em Milão, em 1978.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

O "hino do PT" - parte 1


Projeto de Oscar Niemeyer, o Edifício Copan (à direita na foto) era já naquele ano de 1980 uma espécie de síntese de uma São Paulo cada vez mais vertical e desvairada. Em primeiro plano está o prédio do Bradesco, onde trabalhei; à esquerda, em tom bege, o altíssimo Edifício Itália. O cenário era perfeito para um ex-adolescente ainda retraído, mas ávido por novas aventuras, que não tardaram. Por aquela época, os protestos contra o regime militar se tornaram mais explícitos na imprensa, e grupos contrários à iminente abertura política passaram a patrocinar atentatos a bomba em bancas de jornais. Num daqueles dias, eu caminhava pela Galeria Copan quando ouvi um estrondo muito alto. Corri para a rua, certo de que tinham explodido a banca que havia na frente do prédio. Não. Ao chegar lá, me deparei no asfalto com os estilhaços de um corpo que tinha acabado de despencar do 13º andar. 

1980. Eu já com 16 anos de idade começava a querer ampliar meus horizontes. A primeira coisa era trabalhar em uma empresa maior, se possível no centro da cidade. Foi o que fiz. Saí do jornal e entrei no departamento de seguros do Bradesco, no sétimo andar do edifício-sede do banco, bem ao lado do famoso Copan e da esquina que, dois anos antes, tinha sido imortalizada por Caetano Veloso. Fiquei quase um ano nesse emprego, convivendo diariamente com jovens da mesma idade e quase os mesmos sonhos que eu. A rotina era maçante, resumia-se a atualizar manualmente fichas e mais fichas de segurados. As gavetas dos arquivos eram tão abarrotadas que vivíamos ferindo feio os dedos. Eu detestava aquele trabalho burocrático e burro, mas adorava caminhar pelo centro velho de São Paulo na hora do almoço. Percorria a Galeria Copan, a Praça da República, as calçadas da avenida São Luiz, os jardins da Biblioteca Mário de Andrade, a histórica Galeria Metrópole. Nessa época, comecei a ficar com uma pequena parte do meu salário. Assim, no dia em que o pagamento saía eu podia acompanhar meus amigos do trabalho em um pequeno luxo que repetíamos todo mês: ao invés de almoçarmos no bandejão do Bradesco, de comer aquele grude insosso que nos dava dor de estômago, íamos todos à lanchonete Jack in the Box ali perto. Curtíamos juntos um momento que parecia compensar a proibição de conversas e risos durante o expediente.



Eu estudava no Colégio Gonçalves Dias, um pouco mais distante de casa do que era a escola David Eugênio. Era colega de sala do Joel. Filho de uma feirante, Joel morava num bairro vizinho ao meu, numa casa que vivia cheia de gente. Um pouco mais velho e de personalidade bem mais expansiva, o leonino Joel sempre foi reconhecido como uma pessoa de grande coração. Aliás, ele e a Maria, que também era da nossa turma no colégio, são meus amigos até hoje, os mais antigos que tenho. Joel também não tocava nenhum instrumento harmônico, mas não tinha vergonha de cantar e batucar em qualquer coisa que estivesse na frente. Por ter trabalhado na feira com a mãe, tinha a voz rouca de tanto gritar preços e produtos, mas era afinado e dono de um timbre interessante. A Maria, além de bonita e inteligente, sambava como ninguém. Era por isso desejada por vários rapazes do colégio, inclusive por mim, que o fazia em segredo. Mais tarde compus um samba pra ela, uma das raras músicas que fiz antes dos 20 anos de idade que sobreviveram para uma possível futura gravação.



Em 1980, fui presenteado com este LP da Simone por uma amiga de então que nunca mais vi. Fazíamos parte de um grupo de jovens que se reunia todos os sábado para conversar, ouvir discos de MPB e, claro, também para namorar. Antes de se tornar cantora, Simone foi professora de Educação Física e integrou a seleção brasileira feminina de basquete. Ela chegou a dar aulas no colégio em que estudei, na Zona Norte de São Paulo. Eu e meus colegas escalávamos o muro da quadra para assistir às aulas daquela bela professora.

Por meio de um amigo em comum, conhecemos dois rapazes que tocavam violão e tinham um grupo de MPB, chamado “Sangue Novo”. O Orlando, conhecido como Landinho, era primo do Alexandre, conhecido como Alexandre mesmo. Eles não só tocavam todo o repertório dos mineiros do "Clube da Esquina" como compunham, e bem. Eu ficava maluco com aquilo. Depois de alguns encontros regados a cerveja e muita música, fomos assisti-los na final de um festival de colégio. Naqueles anos, era comum haver desses festivais nos principais colégios de São Paulo. Alguns eram muito bons, e a maioria dava prêmios em dinheiro. O “Sangue Novo” tinha se classificado para a finalíssima com a música “Hino aos Trabalhadores”, uma mistura de tango com marcha de carnaval que empolgava o público com sua letra irônica de crítica social e política. Era uma parceria do Landinho com o Alexandre.



Desde o fim dos antológicos festivais de MPB da TV Record, não foram poucas as tentativas de reviver a antiga fórmula que unia a descoberta de grandes talentos com o mais puro showbusiness. Em 1979, a TV Tupi, então prestes a ser extinta, lançou um desses festivais. Entre as revelações que participaram, como o vencedor Fagner, o segundo colocado Walter Franco e o terceiro Oswaldo Montenegro, estavam os irmãos gaúchos Kleyton e Kledir, que receberam menção honrosa pela divertida "Maria Fumaça". Durante toda a década seguinte, a dupla frequentaria as paradas de sucesso do Brasil com seu som pop repleto de citações e gírias tipicamente gaúchas.

Estávamos eu, o Joel, a Maria e a bonita irmã do Landinho, minha futura "namorada-relâmpago" Olívia, na plateia daquela final. Foi ótimo ver nossos amigos levantarem a galera com o refrão “Nós somos trabalhadores e cada dia trabalhamos sempre mais / as crianças passam fome, passam sede / o jeito é fechar a porta e abrir o gás”. Todo mundo cantava junto. A música ficou em segundo lugar, perdendo para um bom xote que também fazia crítica política, coisa quase inevitável naqueles tempos. Fomos comemorar, embora o Landinho se mostrasse chateado. Eu não sabia, mas era a segunda vez que aquela música ficava em segundo lugar num festival. Naquela noite, fui para casa disposto a mudar aquilo. Logo no dia seguinte, procurei o Landinho e o Alexandre para mostrar novas três estrofes que eu tinha escrito para a música. Eles aprovaram e me incluíram na parceria, mas não queriam mais saber daquela canção que parecia destinada a ser vice-campeã. Insisti e, semanas depois, estávamos classificados para a final de outro festival, com uma versão ampliada e ainda mais irônica do “Hino aos Trabalhadores”. Eu, o Joel e meu irmão Dario tínhamos ingressado no “Sangue Novo”. Como não sabíamos tocar nada, assumimos o vocal. Subimos no palco vestidos com macacão de frentista e segurando cada qual uma marmita. Na plateia, além dos amigos habituais, estavam também as famílias de todos os integrantes do grupo. Ganhamos o festival. Enquanto comemorávamos o prêmio, um sujeito nos puxou para o lado e fez um convite. Estava surgindo ali o “Hino do PT”, mas isso eu conto na sequência.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Intervalo



O Silêncio das estrelas
Lenine / Dudu Falcão

Solidão
o silêncio das estrelas
a ilusão
eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
como um deus e amanheço mortal

E assim
repetindo os mesmos erros
dói em mim
ver que toda essa procura não tem fim
e o que é que eu procuro afinal?

Um sinal
uma porta pro infinito
o irreal
o que não pode ser dito, afinal
ser um homem em busca de mais, de mais

Afinal
como estrelas que brilham em paz

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O autógrafo do Chico - último capítulo


Lá atrás do tempo, autógrafo era todo tipo de texto escrito de próprio punho pelo autor. O conceito foi sendo simplificado até chegar ao que se tornou: tão somente a assinatura de um artista, de uma pessoa famosa, ou mais atualmente ainda, de uma celebridade. Simboliza um momento único na vida do fã, pois adquire status de documento que comprova que ele teve um contato pessoal com seu ídolo.

Eu tinha chegado até ali, juntado trocado após trocado por semanas, meses. Tinha conseguido comprar o disco que tanto queria. Tinha um álibi inconteste para aparecer com aquele LP em casa. Tudo parecia perfeito, e talvez por isso mesmo eu tenha começado a sentir a falta de algum ingrediente na história. Aquilo era um acontecimento muito importante para mim, eu não podia simplesmente chegar em casa e dizer: “olhem, ganhei mais um disco da rádio”. Isso ia passar batido, ninguém na minha família dava ao Chico Buarque metade da importância que eu dava. Eu vibrava com aquelas letras, com aquelas metáforas, com as rimas bem construídas, as melodias inspiradas, as críticas políticas mais ou menos veladas, tudo perfeito, o cara era o maior. Isso merecia um toque a mais, eu precisava que meus pais e irmãos achassem realmente genial eu ter ganhado aquele LP. Foi quando decidi transformar aquela história no fato mais importante da minha vida até então. Para isso, eu precisava de um autógrafo do Chico. 


LP "Mata Virgem" autografado pelo Raul Seixas em 1979. Não lembro qual foi a pergunta, mas fui um dos 10 ouvintes que acertaram a resposta e fui buscar esse prêmio na antiga rádio Difusora. Há alguns bons anos precisei levantar um dinheiro e ofereci este vinil pelo melhor lance na internet, que na época apenas engatinhava. Cheguei a receber algumas ofertas e vários emails, incluindo dois muito gentis da Kika Seixas, ex-mulher do Raul, que se mostrou interessada. Mas eu logo me reequilibrei financeiramente e decidi não levar adiante o leilão.

Antecedentes criminais. Cinco ou seis anos atrás, eu cursava o 4º ano primário. As notas muito boas e comportamento idem nos anos anteriores me credenciaram a ser incluído na principal turma da escola, a da professora Grael. Exigente, porém justa, a Dona Grael era um exemplo de educadora. Os alunos dela eram vistos em toda escola como uma espécie de “elite". Porém, naquela época eu começava não só a ter problemas com a matemática, como a simpatizar com a turma do fundão. Daí a passar a deixar de fazer as tarefas de matemática foi um pulinho. A professora Grael escreveu um bilhete para minha mãe pedindo que ela cobrasse as lições de mim em casa, esse bilhete deveria vir assinado por ela. Com medo de levar uns cascudos, assinei eu mesmo o nome da minha mãe. Semanas depois ela descobriu a fraude e me deu uma boa sova. Aí, escreveu um bilhete para a professora, dizendo que nada sabia sobre meu inesperado comportamento. Eu deveria trazer aquele bilhete assinado pela Dona Grael. Não tive dúvida, assinei eu mesmo por ela, com uma letra tremida que dava dó (juro que ainda consigo ver aquela assinatura garranchada). Não sabia, mas minha mãe conhecia a assinatura da minha professora. Resultado: o couro comeu de novo, e dessa vez em dose dupla.



Requintes de fantasia. Repare no que está grafado no canto inferior direito da capa do disco acima. Esqueça, não é o autógrafo dele. Peguei uma bic qualquer e fiz o serviço. Contei em casa que tinha tido um contato com o Chico Buarque no estúdio da rádio Difusora horas antes, quando fui lá buscar o prêmio. Aparentemente, a história colou, mas ninguém pareceu dar para ela a importância que eu queria que dessem. Como assim? Uma história assim tão fantástica e nada? Aliás, tão fantástica que durante muito tempo cheguei a achar que até eu acreditava nela. Guardo este LP com o maior carinho. Ele é representativo de uma época importante para mim, como são os 14 ou 15 anos de idade na vida de qualquer pessoa. Mas é mais que isso. É um documento que ilustra uma passagem que hoje soa ingênua, mas que me traz um indisfarçável orgulho. Sim, porque todos os office-boys faziam das suas, isso era sabido, era quase um ritual de passagem para qualquer menino. A diferença é que a grande maioria pegava o dinheiro e ia comprar tênis e jeans americanos contrabandeados do Paraguai. Gosto de saber que fui aquele menino que fez o que fez para comprar um disco, e um disco do Chico Buarque. Quis reter para mim canções que me emocionavam e que foram importantes para a minha formação cultural e pessoal. Ah, e antes que você pergunte, minha carreira de contraventor não teve sequência.



Em 2007, Chico Buarque esteve em Curitiba apresentando o show “Carioca”. Meu parceiro em dois sambas, o grande Wilson das Neves, sambista de primeira linha e baterista que acompanha o Chico em discos e shows desde a década de 1980 (ele aparece no vídeo acima), disse para eu estar no Guaíra uma hora antes do show. Ele chamaria o mestre em seu camarim e me apresentaria como amigo e parceiro. Fiquei muito a fim de ir, muito mesmo, mas desisti no último momento. O cara vive sob intenso assédio, não quis ser mais um a fazer isso só pra tirar uma foto ao lado dele. Tenho outros planos para essa história, para esse possível encontro. Acredito que tenha tudo para acontecer e dar muito certo, inclusive porque o motivo é realmente bom. Mas isso não tenho como contar, não ainda.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Intervalo



Durante muito tempo, Chico Buarque teve que explicar o fato de Noel Rosa ter sido uma das suas grandes influências na música, senão a principal delas. Neste vídeo fantástico, vemos uma apresentação do "Bando de Tangarás", conjunto surgido em 1929 e que tinha como integrantes, na sua primeira formação, Noel (o violonista em pé, à esquerda), Almirante, Braguinha, Henrique Brito e Alvinho (eu sei, no vídeo a conta não fecha, aparecem seis músicos). Noel, que na época era conhecido apenas como um bom violonista da Vila Isabel, era o mais jovem deles. Inspirado nos grupos regionais que faziam sucesso na época, o "Bando de Tangarás" existiu até 1933, a partir do que cada qual tomou seu rumo em carreiras individuais. Noel, Almirante e Braguinha (que depois mudou seu nome para João de Barro), foram os mais bem sucedidos.


Vamo falá do Norte
(sem autoria definida)

(refrão)
Quando nós saímos do norte
Foi pra no mundo mostrar
Como canta aqui nesta terra
Um bando de tangarás

Uma madama pra fazer economia
Comprou as perfumarias num tutu que ela encontrou
Saiu pra rua perfumada em todo canto
Aí o perfume fedeu tanto que a madama desmaiou, ai

Meu tangará, meu curió, meu terra-a-terra
E o meu canário da terra que é danado pra cantar
Eu também canto uma semana, um mês inteiro
E quando eu canto no terreiro inté a lua quer sambar, ai

Eu fui fazer minha compra na feira
Eu vi tanta roubalheira de se encabular
Tava um sujeito de roubar com uma tal febre
Vendendo gato por lebre, ratazana por gambá, ai

Na sepultura que eu fiz pra minha famia
Tinha um freguês por dia para se enterrar
Na minha vez quando eu cheguei ao pé da cova
E apesar de ela ser nova já não tinha mais lugar, ai

E lá no norte quando é boa a brincadeira
Lá vem bala e vem madeira, tem tabefe, tem punhá
Mas eu não temo nem cacete e nem garrucha
Levei dez tiros na fuça e depois disso eu fui sambar, ai

Dei um emprego, ai, ao filho do Zacaria
Só das onze ao meio dia que tinha que trabaiá
Mas o malandro pegar peso não podia
E além disso inda queria hora e meia pra almocar, ai