segunda-feira, 1 de março de 2010

Vai passar

Vista aérea do Vale do Anhangabaú durante o comício pró-Diretas Já, em abril de 1984. Eu estava lá. Foto Ag. Estado.

Os anos 1980 começavam sob o signo do protesto. Não mais o protesto velado ou aquele feito na clandestinidade. A sociedade civil finalmente começava a sair às ruas para reivindicar melhores condições de vida, de trabalho, para exigir a redemocratização do país. O período do chamado “milagre econômico” há muito ficara para trás, e os sinais de insatisfação com a miséria crescente, a inflação, o endividamento do país e a falta de liberdade política eram cada vez mais explicitados. Mas a repressão, embora tivesse sido bastante abrandada em relação ao que foram os anos de chumbo das décadas de 60 e 70, ainda arriscava umas recaídas.


"Inútil", com os paulistanos do Ultraje a Rigor. O rock nacional começava a despontar mostrando uma de suas principais características, a irreverência.

Foi nesse clima que atingi a maioridade e alcancei duas importantes vitórias: o trabalho e a faculdade. Depois de me ver livre de servir o exército, já que fui incluído no “excesso de contingente”, eu já podia voltar a conseguir um emprego regular. Traumatizado que estava pelo longo período sem trabalho e ciente da crise de desemprego pela qual passava o país, optei por ir atrás da estabilidade do serviço público. Comprei algumas apostilas em uma banca de jornais e estudei por uns dias as disciplinas que eu desconhecia à época, como noções de Direito e a legislação aplicada ao funcionalismo público. Prestei concurso no TRT e no TRE de São Paulo, sendo aprovado nos dois. Como fui chamado rapidamente pelo TRT foi lá que me apresentei, e assim passei a ser funcionário público federal, onde permaneci por 10 anos.


Marina Lima canta "Fulgás", dela e do irmão Antonio Cícero, de onde destaco o verso "você me abre seus braços e a gente faz um país".

Já dentro da Justiça do Trabalho, influenciado pelo meio e pelo fato de não precisar comprar livros, uma vez que vários dos meus colegas de trabalho estudavam Direito, acabei optando por prestar vestibular para esse curso. Acima de tudo, eu queria estudar algo que não incluísse matemática nem física, matérias que me infernizaram especialmente no colégio. Passei no vestibular do Mackenzie e fiz minha matrícula. Mas naquela manhã de domingo em que meu pai gritou para mim, eu debaixo do chuveiro, que meu nome saíra no jornal, na lista da PUC, desisti do Mackenzie. Eu queria estudar na PUC, uma universidade claramente de esquerda. Cinco anos antes, durante uma assembléia de estudantes, a PUC havia sido violentamente invadida pela polícia, comandada pelo então Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, coronel Erasmo Dias, que faleceu recentemente. Muitos estudantes apanharam, tiveram a pele queimada por bombas de gás lacrimogênio, outros foram levados para o DEOPS (Delegacia Estadual de Ordem Política e Social) onde vários foram fichados e espancados. Além desse perfil da universidade me atrair, o curso de Direito da PUC rivalizava em qualidade com o da USP, o do Largo São Francisco.


Fafá de Belém em uma das músicas que foram apropriadas pelo movimento Diretas-Já, "Menestrel das Alagoas", de Milton Nascimento e Fernando Brant. O "menestrel" em questão era Teotônio Vilela, senador que pertencia à ARENA, partido que dava sustentação política ao governo militar. No entanto, em 1979 Teotônio passou para o MDB, tonando-se um dos artífices do início da campanha pela volta das eleições diretas para presidente da República. Morreu de câncer em 1983. 

A redemocratização do país era um processo irreversível, que culminaria com a campanha Diretas Já, lançada em 1983. Estive presente em dois momentos dessa história. O primeiro foi em uma passeata de “bate-panelas”, que saiu da PUC e foi até a Praça da Sé. Durante o trajeto batemos tampas de panelas e gritamos palavras de ordem pelo fim da ditadura. Estive também na maior manifestação pública da história do Brasil, o comício das Diretas Já no Vale do Anhangabaú, que aconteceu em 16 de abril de 1984. Um milhão e meio de pessoas presentes tendo como mestre de cerimônias o locutor esportivo Osmar Santos. Sucessivamente, iam tomando a palavra políticos, artistas e esportistas. Ulysses Guimarães, Brizola, Tancredo Neves, Lula, Fernando Henrique Cardoso, o jogador de futebol Sócrates, Chico Buarque, entre outros. Obedecendo à convocação dos organizadores, eu e meus amigos da Justiça do Trabalho vestimos camiseta amarela, apesar das ameaças que circulavam pelos corredores do TRT. Dito e feito, dias depois vários de nós foram transferidos compulsoriamente para cidades indesejadas, como Cubatão, que era então uma das mais poluídas do mundo. Por algum motivo, escapei da represália e permaneci em São Paulo. As eleições diretas não passaram pelo Congresso. Eleito no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves morreu antes de assumir. O cargo de presidente da República caiu então no colo do vice-presidente na chapa, o senador José Sarney, que até pouco tempo atrás era do partido da situação, a ARENA. Ou seja, um verdadeiro samba do crioulo doido.


"Vai passar", de Francis Hime e Chico Buarque. Empunhando o estandarte de uma fictícia escola de samba a que chamou de "Sanatório Geral" (que na verdade era o próprio Brasil), Chico, mais uma vez, conseguiu sintetizar toda uma época em alguns versos. 

6 comentários:

Anônimo disse...

Ma, a foto do Diretas Já é uma cavocada nas minhas melhores e mais emocionantes memórias dos anos 80. Cara, eu também tava lá. A gente nem se conhecia ainda...
Lembro bem dos caras todos juntos no palanque: Ulysses, FHC, Lula, Covas, Tancredo. Odeio política, mas esse momento foi veramente especial. Não deu pra segurar as lágrimas na hora do Hino Nacional, de arrepiar! Tks pela lembrança. Bj Mara

Marcelo Amorim disse...

Quer dizer que você também esteve lá, Mara? Puxa, que interessante saber disso agora. Quanto à coisa de você odiar política, acho que o que você rejeita é o "jogo político", certo? Porque a política é parte da vida, naquele dia no Anhangabau a gente tava participando da vida, da história. E isso é sempre marcante, principalmente pelo que estávamos lutando na época. Beijo

Tati disse...

Oi Marcelo. Eu era criança nesta época e moro no RJ, não participei deste comício que você descreve, mas meus pais me deram a oportunidade de participar de muitas coisas por aqui. Eles estavam entre os fundadores do PT no RJ e também fizeram parte da luta dos mutuários... Seu post foi uma viagem à minha infância, às histórias que meus pais contam e também àquelas que vivi, com cor, cheiro, sabor, sons, muitos sons!! Bom demais. Um beijo.

Marcelo Amorim disse...

Tati,sorte sua ser apenas uma criança nesta época...rs... mas mais sorte ainda seus pais terem incentivado você a conhecer boas histórias. Agradeço muito pelo seu comentário, o que você disse é o tipo da coisa que faz valer a pena compartilhar essas emoções. Um grande beijo.

Maria disse...

Oi Marcelo!
Quantas lembranças...O movimento pelas diretas e o Lira Paulistana. Claro que aparticipei do primeiro, apesar da situação politica da época nos deu tanta esperaça...
Cheguei a ir no Lira uma ou duas vezes com os meninos da turma la do bairro. Não sei se vc se lembra deles, do Denilson, do Galego e da Magi,acho que vc saiu com a gente uma vez.
Realmente, é muito bom acompanharo seu blog, tanto para matar a saudades como relembrar o passado.
bjs
Maria

Marcelo Amorim disse...

Oi, Maria!
Lembro vagamente desse povo que você citou, meu contato com eles foi muito breve, acho que foi mesmo por uma só vez. Tenho a lembrança de que havia essa turma, sim, mas não das pessoas exatamente. Uma das coisas boas de botar essas histórias aqui é isso, os amigos juntarem outras lembranças pra completar o fato e a época. Espero conseguir começar outra história esta semana, apesar da correria enorme aqui. Beijos pra você