terça-feira, 20 de abril de 2010

O jazz, a cantora e eu - parte 1


Até aquele momento eu nunca havia parado para ouvir jazz. Por estar muito ligado à música brasileira e praticamente desconhecer os artistas que faziam jazz, eu não me sentia atraído. Mais do que isso, o pouco que tinha ouvido me levava a crer que jazz era uma música em que se abusava do virtuosismo, e isso não me entusiasmava. Um dia, depois de ter ficado algum tempo sem ver o Landinho Vasques e o Alexandre, que eram do grupo Sangue Novo, do qual fiz parte por um tempo, fui me encontrar com os dois na casa do Landinho. Lá, cantei algumas das minhas composições mais recentes e ouvi as coisas novas do Landinho. Ele estava visivelmente evoluindo no ofício. Eu mostrei uma música que tinha feito naquela semana, uma bossa-nova de andamento mais lento, que cantava num tom de voz bem alto, com bastante facilidade. A mãe do Landinho, que nos ouvia lá da cozinha, chegou a fazer um elogio, o que me deixou feliz. Aí, em determinado momento, o Landinho botou pra girar na vitrola um LP, do qual saiu a voz rouca de uma antiga cantora americana que eu já tinha ouvido não sabia onde. Ele perguntou se eu conhecia, eu não quis arriscar. Era Billie Holiday.


Billie Holliday interpreta "I love you, Porgy", da ópera-jazz Porgy and Bess, composta pelo americano George Gershwin

Por aquela época, eles andavam ouvindo jazz aos montes. Era como se uma nova fase tivesse sido inaugurada na vida dos dois. Meus ouvidos não habituados não desgostaram do que ouviram, mas também não posso dizer que gostei. Achei curioso aquele timbre e aquele jeito de cantar. Eis que dias depois encontro o Alexandre e ele me popõe assistirmos juntos o musical “Emoções Baratas”. Topei e marcamos para o próximo sábado. O Alexandre estava decidido a me converter para o jazz, então gravou uma fita cassete inteira com clássicos do gênero, os chamados "standards". Como morávamos no mesmo bairro, fomos da Vila Gustavo até Pinheiros ouvindo canções belíssimas cantadas por vozes marvilhosas. Não tinha como não gostar daquilo. Além da qualidade inegável do material, ali estava muito da sonoridade de um Johnny Alf, de um Tom Jobim, só pra citar três dos compositores brasileiros que foram buscar no jazz estruturas harmônicas que a música popular brasileira desconhecia antes da bossa-nova.


Carmen McRae canta "I'm Going To Lock My Heart, And Throw Away The Key",
de Jimmy Eaton e Terry Shand

O musical “Emoções Baratas” foi um acontecimento em São Paulo. Ficou dois anos em cartaz, sempre com casa lotada, num espaço muito bonito que existia (ou ainda existe) no bairro Pinheiros, um misto de casa de shows e bar cujo nome não me lembro. Dirigido por José Possi Neto, o "Emoções Baratas" era um teatro-dança que recriava o clima dos night clubs americanos da década de 1950. Num ambiente esfumaçado onde não havia poltronas, mas sim mesas e cadeiras, além de um palco e um bar de verdade, com balcão e tudo, dançarinos – entre eles o Sebastian, que depois passaria a estrelar os comerciais da C&A – faziam coreografias sensuais em torno da música extraordinária de Duke Ellington, executada com muita competência pelos músicos da big band paulistana Heartbreakers. Havia também duas cantoras, duas crooners. A mais conhecida era a mineira Misty, que no início se revezava com a novata Adyel. Filha de Adhemar Ferreira da Silva, primeiro atleta brasileiro a ganhar medalha de ouro em olimpíadas, Adyel havia ganho notoriedade ao cantar o jingle de um comercial de TV. Porém, tinha deixado o elenco semanas antes. Sua substituta no espetáculo acabou sendo responsável por uma das melhores histórias que vivi com a música e com uma mulher.
(continua no próximo post)


Duke Ellington e sua banda executam "Satin Doll", clássico do próprio Duke

9 comentários:

Mara Regina disse...

Ah, Marcelo!!!!!!!! Que coisa mais linda essa história. Você sempre me resgatando coisas e momentos felizes que, sem saber, vivemos ao mesmo tempo! Você é incrível.E como é gostoso o jeito que vc escreve. Também fiquei maravilhada com o "Emoções Baratas", e também não me lembro o nome da casa, que não existe mais, em Pinheiros. Você me transportou agora (às 16h20 de uma sexta-feira) ao exato momento, local, atmosfera e fumaça daquela noite mágica. Uma noite em que não dancei nem com o Sebastian nem com um músico do Heartbreakers, mas que eu estava muito feliz. Obrigada, querido.Bj

Mara Regina disse...

A Izi é filha do Itamar, não é?

Marcelo Amorim disse...

Foi um show lindo aquele, né, Mara? Das melhores coisas que vi e vivenciei, sem dúvida nenhuma. Fico muito feliz de saber que isso te trouxe boas lembranças. Pra mim isso já valeu o post.

No próximo dou a ficha da Izy, mas já adianto que ela não tem parentesco nenhum com o Itamar (o Franco?), Beijo

francis disse...

Ei querido, linda série jazzística. Tava viajando na sua dança com Isy Gordon. Abç

Marcelo Amorim disse...

Oi, Francis! É, cara, essa história é boa, mais adiante a dança continua ;-) Um abraço

Mara Regina disse...

Hummmm... acho que troquei as filhas. Ou os pais. A mina filha do Itamar é Anelis, não é? Misturei tudo, igual ao seu drink com bourbon. Bjs

Marcelo Amorim disse...

Mara, eu não sei o nome da filha do Itamar, mas a Izy vem de uma família bem mais interessante, depois vou contar isso. Beijo

Adyel disse...

Olá Marcelo

Como vai ?
Pesquisando Emoçoes Baratas encontrei o seu blog...e suas impressões sobre o espetáculo.
Sai antes da sua ida mas bem antes de gravar o jingle para a Jeaneration, que me fez um pouco famosa na época.Isso só aconteceu um ano depois.
José Possi está remontando o espetáculo, revelando novos talentos.
Lancei um cd em 2003, feito com muito carinho e respeito pela música brasileira , seus compositores e musicos.Você pode baixar, com capa e tudo nest endereço :
http://www.4shared.com/file/ospdDwNJ/2000_Adyel_Silva-CD_Chic_Da_Si.html
Espero que vc goste.
Bj

Adyel Silva

Marcelo Amorim disse...

Oi, Adyel, que coisa boa você ter vindo aqui! E melhor ainda ter postado esse comentário corrigindo parte das informações que eu achava ter memorizado corretamente. Mais do que isso, muita gentileza sua ceder o link do seu CD, que vou baixar pra conhecer, sim, como maior carinho. Espero que a gente mantenha contato via facebook, um grande beijo.