terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cale-se

Na foto sem crédito, da esquerda para a direita, Leila Diniz, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengel e Ruth Escobar. (na identificação das mulheres, tive a colaboração de Liz Kasper)

Preciso segurar um tantinho mais o calendário, para resgatar um evento que vai originar uma boa história que aconteceu comigo anos depois, e que ainda irei relatar aqui. Quero falar de uma música que praticamente me apresentou ao "mundo adulto", mais precisamente à complicada situação política e social que o Brasil vivia na época em que eu ainda perdia roupas por mudar de tamanho. Provavelmente, “Cálice” foi a primeira letra de música “de gente grande” que aprendi e aprendi num tiro, em três ou quatro ouvidas. Claro que, de início, entendi apenas uma pequena parte das metáforas e artimanhas poéticas que Chico Buarque e Gilberto Gil engendraram naquela letra, nascida no sábado seguinte à Sexta-feira Santa de 1973. Aliás, só fui aprender a cantar a música em 1978. Por obra da censura militar, o Brasil demorou ansiosos 5 anos para conhecer esta belíssima letra.
VETADO, por ter o autor empregado palavras comuns ao linguajar da Bolsa de Valores, mas que não se adaptam à uma mulher principalmente em letra de música popular. O autor parece estar de uns tempos para cá muito “preocupado” em denegrir a reputação de todas das mulheres, vide uma de suas últimas composições – “Minha História”, que relata a vida de um homem filho de uma prostituta. Em 21/7/71" (sic). Assim se justifica o censor ao barrar mais uma música de Chico Buarque.

Chico deu o pontapé inicial: a frase “Pai, afasta de mim esse cálice”, tirada da passagem bíblica em que Jesus teria derramado lágrimas de sangue às vésperas de sua paixão, já vinha com o duplo sentido necessário. Os militares ainda governavam o Brasil com mão de ferro. Nos subterrâneos dos quartéis, o vinho tinto de sangue seguia manchando as páginas da nossa história. Na imprensa e na vida política e cultural do país, a mordaça da censura provocava um silêncio ensurdecedor. Chico e Gil escreveram a letra a quatro mãos especialmente para o show Phono 73, que a gravadora Phonogram (ex Philips, e depois Polygram) organizaria no Anhembi, em São Paulo, logo no mês seguinte. O show seria um encontro em duplas dos maiores nomes do elenco da gravadora.



Apresentada antes à censura, “Cálice” foi vetada. O recado veio na forma de uma “recomendação” para que Gil e Chico não a cantassem no show. No entanto, eles decidiram promover uma espécie de desobediência civil e começaram a apresentar a inédita “Cálice” para uma plateia que, àquela altura, já esperava avidamente para conhecer a nova composição. Eles não cantaram a letra. Puseram-se a inventar palavras, inventar idiomas, comer frases, vocalizar partes da melodia. Até que o som do microfone do Chico foi cortado. Ora o microfone era desligado, ora o retorno sumia, deixando o cantor sem saber se estava ou não sendo ouvido. Esse fato acabou criando uma verdadeira lenda em torno de “Cálice”. Mesmo eu, que mal começava a entender o que era o regime militar e o que significava censura, era um dos brasileiros impactados por aquele fato e que não viam a hora de escutar na íntegra a música que por anos pairou como uma sombra sobre a massa crítica do país.



Quando "Cálice" foi finalmente liberada, Chico ficou um pouco reticente em gravá-la, pois se encontrava em outro momento artístico, compondo para o musical "Ópera do Malandro". Mas era importante, ele sabia, registrar essa que talvez tenha sido a música que mais claramente disse não à censura. Gilberto Gil, que na época tinha acabado de sair da Polygram, não participou da gravação. A parte que lhe coube na letra foi cantada por Milton Nascimento. A censura só seria abolida no Brasil em 1988.

9 comentários:

(l' excessive) disse...

Acho que na das mulheres - a promeira desta postagem - sao Odete Lara e Norma Bengel antes da Ruth Escobar.

Marcelo Amorim disse...

Podem ser mesmo. A Odete Lara eu não reconheceria, mas olhando bem pra que seria a Norma Bengel, é bem possível. A Dina Sfat era mais "longilínea", acho, Obrigado pela luz, Liz :-)

dade amorim disse...

Tristes tempos, primo. Vi coisas de arrepiar - estava entrando na faculdade - e vivemos uma fase de muito medo mas que deixou muitas histórias pra contar. Até hoje o trauma ainda funciona.

Beijo.

Marcelo Amorim disse...

Que isso fique no passado, né, prima? E num passado cada vez mais distante. Beijo

Vivica disse...

Com certeza a ditadura não foi um dos melhores momentos da história brasileira, mas não seria nada mal um censor destes hoje em dia para vetar os funks ma-ra-vi-lho-sos que tem por aí; as mulheres-fruta e a mulher do Kaká como pastora da Igreja Renascer...rs (pobres fiéis espanhóis e torcedores do Real Madrid). Deviam vetar logo é a Igreja Renascer inteira...rsrsrs

Conehci essa música no último ano do colégio e de que quebra descobri também que o tema do Criança Esperança da Globo é referente à censura. Muito bacana! Digo, bacana pra mim que não vivi a ditadura!

Beijo!

Francisnaldo Borges disse...

Quando o governo do Gal. Figueiredo caminhava para a abertura política, "Apesar de Você", do mesmo disco que tem "Cálice", também passou pelo censor, quando Chico desconversou, se defendeu:"isso é pra um fim de namoro"... E o disco saiu pra vendagem, pra ser tocado e eles os vasculharam das lojas, perceberam o poder da composição revolucionária de Chico Buarque, numa época difícil do nosso país.

Marcelo Amorim disse...

Bem lembrado, Francisnaldo,"Apesar de Você" é outro hino dessa época complicada. Eu não conhecia essa história do drible que o Chico deu na censura pra liberar a música, coisas de um gênio da raça.

Francis disse...

Chico sofreu muito para divulgar suas músicas, à época. Ninguém sabe como seria o Brasil sem sua contribuição poética e política. Não subestimando outros valores musicais, a exemplo de Gil, Milton e Caetano... Aquele disco "Chico & Bethânia" que tem "Sem Fantasia" é tudo para mim. Esse que falamos antes, de 1979, faz parte da minha geração e do momento que vivia o país.

Marcelo Amorim disse...

É verdade, Francis, o Chico foi um dos compositores que mais problemas teve com a censura no Brasil. Tanto que chegou a criar um pseudônimo, o "Julinho da Adelaide", pra poder liberar as músicas “Acorda amor” e “Jorge maravilha” pro LP Sinal Fechado, de 1974. Mais adiante voltarei a falar do Chico e do disco em que ele finalmente pôde gravar "Cale-se". Agradeço muito sua ótima participação. Um abraço