segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Dancin' days

Estávamos em 1977. Quem tinha menos de 18 anos (ou até mais que isso) e era de alguma forma afetado pela cultura pop (e quem não era?), certamente entrou nessa dança. Literalmente. A disco music, que já existia como gênero desde o início dos anos 1970 e trazia ingredientes do funk, do soul e de alguns ritmos caribenhos, ganhava um impulso de massa que faria a coisa virar febre mundial. Estreava nas telas de todo mundo o longa-metragem “Saturday Night Fever”, aqui traduzido para “Embalos de Sábado à Noite”. Dirigido por John Badham, o filme tinha dois trunfos que explicaram boa parte do seu estrondoso sucesso: a música dos Bee Gees e o carisma do quase estreante ator John Travolta, que deu vida e corpo a Tony Manero, um vendedor de tintas que, como muitos dos seus amigos igualmente jovens e pobres, via nas pistas de dança sua única chance de ser alguém.



Pronto, o gênero musical que aqui foi chamado de “discoteca”, em alusão às boates e clubes noturnos onde se tocava tal música, passou a arrastar multidões em torno do ritmo e das melodias contagiantes, de coreografias pré-ensaiadas, de luzes que não paravam de piscar e de muita potência de som. Com14 anos de idade, e criado num ambiente em que a cultura popular reinava, eu, claro, fui junto. Depois de assistir ao filme por duas ou três vezes no cinema, disputando lugar até no chão, tamanha a quantidade de gente que lotava todas as sessões, passei a freqüentar as “domingueiras”. Em quase todas as tardes de domingo íamos ao salão da Associação Atlética Ponte Pequena (acho que era esse o nome), na Zona norte de São Paulo, eu, meu irmão Dario, quase dois anos mais velho, e alguns amigos e amigas da escola e do bairro. Apesar de gostar daquela música, de me sentir também parte daquela febre, eu ficava meio deslocado. Além de ser o caçula da turma, eu nunca fui muito bom numa pista de dança. Já meu irmão barbarizava, era o próprio Tony Manero, reproduzindo com perfeição quase todos os passos que John Travolta fazia no filme, inclusive nas danças em par.



O sucesso do filme foi tanto que no ano seguinte a TV Globo produziu a novela Dancin' Days, com Sonia Braga no papel de Júlia, uma ex-presidiária que dá a volta por cima justamente ao esbanjar sensualidade e beleza nas pistas de uma discoteca. A chamada “Era Disco” extrapolou a música e ajudou também a criar um estilo de vida, uma forma mais imediatista de encarar as coisas, além de ter ditado moda. Havia os sapatos plataforma, as calças boca-de-sino (que faziam nossos pés parecerem verdadeiros badalos e nossas canelas verdadeiras patas de elefante) e camisas com golas enormes e estampas impensáveis até então. Quem tem mais de 40 anos de idade, ainda hoje não resiste a chacoalhar o esqueleto ao som daquelas músicas. Os DJs sabem bem disso quando precisam agitar alguma festa de casamento, de formatura ou coisa parecida. Basta colocar algo dos Bee Gees, da Donna Summer, do Village People, da Gloria Gaynor ou das Frenéticas pra rodar que a pista será invadida por quarentões saudosos do tempo em que dançavam para soltar suas feras, esquecer suas frustrações, mandar tudo que fosse ruim para uma outra dimensão, nem que fosse por apenas algumas poucas horas.

8 comentários:

(l' excessive) disse...

Tony Manero e Freneticas nao tinha como passar sem ser contagiado!
Curti adoidada estes personagens

Marcelo Amorim disse...

Tem razão, Liz, a coisa pegou porque era boa, independente de ter um que de descartável também.

dade amorim disse...

Tempo de muito agito :)
É engraçado, mesmo que você não gostasse da música, dentro da pista não havia como fugir.
Beijo, primo!

Marcelo Amorim disse...

Não havia como fugir mesmo, prima. Mas eu gostava de várias músicas da época disco, só não era bom na pista. O máximo que fazia era tentar imitar os passos do meu irmão e da galera. Eu tinha só 14 ou 15 anos de idade, ainda não conhecia o grande professor de dança chamado uísque :-)

Tati Karpa disse...

hahahahaha
professor de dança é?

três comentários sobre os vídeos:

1. assassinaram Living Alive nesta versão que vc encontrou, hem?

2. Don't let me bo misunderstood já é uma segunda versão, "disco", do rock do Deep Purple (aquele rock que vc diz ter "pulado")... música boa é música boa, não tem fronteiras de gênero!

3. cara, essas frenéticas cantavam muito! eu era criança mas usei melissinha com meia soquete brilhante, na época da novela!!! Que vozes tem essas mulheres!

Marcelo Amorim disse...

Pois é, Tati, essa versão que pus aqui da "Staying Alive" foi a de melhor qualidade de som e imagem que encontrei. Além disso, o vídeo faz um clipe interessante do Tony Manero nas pistas, pra quem não conhece o filme acho que é legal. Quanto ao remix, realmente...

Já a "Don't Let Me Be Misunderstood", pelo que descobri, é até mais antiga que a versão do Deep Purple. Os Animals gravaram isso no início dos anos 1960, antes do Purple ser formado. A Nina Simone gravou, enfim, é um clássico daqueles que vivem sendo regravados, e as versões do Animals e da Nina são belíssimas, dá uma olhada no Youtube, acho que vc vai gostar. E você tem razão, música boa não tem gênero. Não é que eu não goste de rock, só não fui nem sou "roqueiro". É um gênero que respeito pacas, tenho LPs clássicos de rock em casa, curto muito Rolling Stones, o rock-blues dos anos 60 e tal, só não é o estilo de música que prefiro ouvir, só isso.
Quanto às Frenéticas, elas eram o máximo mesmo. Beijo pra você.

Leila Pugnaloni disse...

Noooosssa, Marcelo!
Como dancei esta...vou roubar ...pro meu blog,bj

Marcelo Amorim disse...

Entra sem bater e leva o que quiser, Leila, a casa é sua :-)