sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O primeiro show - parte 1

O bairro de Santana, em São Paulo. À direita, vista pela lateral, a Paróquia Sant'Ana, vizinha ao meu primeiro emprego. Logo abaixo da igreja, uma escola muito tradicional do bairro, cujo nome não lembro. Ao centro, a Estação Santana do Metrô, sobre a avenida Cruzeiro do Sul. Foto sem crédito

Poucos meses depois que completei 14 anos quis trabalhar. Naquela época, a idade mínima para ser contratado formalmente era essa. Queria ajudar no orçamento da família, por isso a ideia de começar a trabalhar me pareceu tão natural quanto passar a estudar à noite. Um anúncio de jornal que vi num domingo me levou na manhã da segunda-feira à redação de um dos mais tradicionais jornais de bairro de São Paulo, "A Gazeta da Zona Norte". “Precisa-se de Office-boy”, dizia o anúncio. Nas empresas, o "boy" era quem fazia os serviços de rua, muitas das coisas que hoje os motoboys fazem. Preenchi uma ficha e escrevi uma redação dizendo por que queria trabalhar ali. Era o mais novo dos 9 candidatos à vaga, e o mais caipira de todos. A sede do jornal ficava no bairro de Santana, distante uns 30 minutos de ônibus de onde eu morava. Era o bairro mais movimentado da Zona Norte paulistana, com um comércio importante, agências bancárias e até uma estação de Metrô, a Estação Santana da linha Norte-Sul, que havia sido entregue à cidade três anos antes. Eu achava aquilo quase outro mundo. Gente por todo lado, ônibus pra todo lado, congestionamentos, lojas enormes, poluição sonora, uma verdadeira Babel pra um guri que saía muito pouco da sua região.



Comecei no primeiro dia útil de 1978. Na "Gazetinha" trabalhavam quatro jornalistas em dois turnos. Um deles, e que na verdade entrou depois de mim, era a Inês de Castro, por quem me afeiçoei logo e muito naturalmente. Filha de Eurípedes de Castro, político já falecido e que teve considerável importância na sua época, Inês era uma entre muitos filhos. Se não me engano, eram nove irmãos ao todo, a grande maioria composta por mulheres. Os Castro eram uma família muito diferente das que eu havia conhecido até então. Eram todos artistas, profissionais ou amadores. Cantavam, dançavam, compunham, atuavam no teatro adulto e infantil. De cara, a Inês se impressionou com o meu apetite por música brasileira. Naquela altura, eu já era um iniciado na MPB. Sabia cantar muitas músicas novas e antigas, e tinha até um repertório razoavelmente sofisticado para um garoto da minha idade. Ela se impressionou especialmente com a facilidade que eu tinha para decorar letras, por mais rebuscadas que fossem. Observava como eu acompanhava a música atentamente pelo rádio de pilha sobre minha mesa e dizia, por detrás de seus óculos: “Não acredito, essa música saiu anteontem e você já sabe cantar?”. Ela e referia a "Geni e o Zepelim", do Chico, que havia sido lançada naquela mesma semana, e cuja letra quilométrica eu decorei em três ou quatro escutadas. Um dia, ela chegou pra mim toda feliz: “Na sexta-feira vou te levar no show da Elis Regina. Pode falar pros seus pais que depois te deixo na sua casa. Já tenho os ingressos, é um presente meu, acho que você vai gostar”. Eu nunca tinha ido a um show. Dois anos antes tinha visto a Inezita Barroso se apresentar no pátio da minha escola, nas comemorações do Mês do Folclore, e só.


A paulistana Inezita Barroso, cantora, atriz e há quase 30 anos apresentadora do programa “Viola, minha viola” na TV Cultura de São Paulo, conquistou fama com seu vozeirão ao gravar grandes clássicos da música caipira. Professora de folclore em duas faculdades, interessou-se desde cedo pelo gênero musical que retrata o modo de vida da gente do interior. Seu maior sucesso, a moda de viola “Moda da Pinga”, de Ochelsis Laureano e Raul Torres, possui uma das letras mais engraçadas e politicamente incorretas da música brasileira. O curioso é que o manguaceiro retratado na canção não é um homem, como era de se esperar, mas sim uma mulher. A animação deste vídeo é medonha de tosca, talvez por isso mesmo tenha lá sua graça. 

Não lembro exatamente o que eu disse pra Inês naquele momento, se é que consegui dizer algo além de um "puxa, muito obrigado!", mas dei um abraço nela e a considerei a pessoa mais incrível do mundo. Um teatro de verdade, um show de verdade, e daquela que já era considerada por muitos a melhor cantora do país. Elis Regina, aqui vou eu! (continua)

8 comentários:

Francisnaldo Borges disse...

Essa imagem é de Elis em Portugal. Gosto muito de "Cão sem Dono" e Meio Termo". Então você viu o show no Teatro Ginástico? Lá, em 1993, assisti um lindo musical. Quando tiver tempo visite "Memória Elis" e comente a postagem "Elis a caminho do sol". Muito organizado seu blog.

Marcelo Amorim disse...

Sim, Francisnaldo, esse video é de uma apresentação da Elis em Portugal. Será esse show que irei relatar aqui no próximo post, que assisti em São Paulo, no Teatro TAIB. No yutube não encontrei imagens do show aqui no Brasil, que foi bem mais vibrante que esse "recital" ai que ela deu em Portugal. Vou lá ver o post que você indicou.

Marcelo Amorim disse...

Sim, Francisnaldo, esse video é de uma apresentação da Elis em Portugal. Será esse show que irei relatar aqui no próximo post, que assisti em São Paulo, no Teatro TAIB. No yutube não encontrei imagens do show aqui no Brasil, que foi bem mais vibrante que esse "recital" ai que ela deu em Portugal. Vou lá ver o post que você indicou.

Tati Karpa disse...

Eu adorava o kid vinil =P

Marcelo Amorim disse...

Ele é ótimo mesmo, Tati, mas entrou meio de gaiato no post, já que é dos anos 80. Botei aqui só pra ilustrar a coisa do meu primeiro emprego, como "office-boy". Peguei muito ônibus lotado na vida ;-)

Francis disse...

Gostei disso: "peguei muito ûnibus lotado na vida". Isso são nossas ilhas, atropelamentos e engarrafamentos: o sinal sempre estará fechado para nós. Essa multidão de brasileiros ainda está à deriva.

Vivica disse...

Eu adoro Fascinação. Mas também, com uma gaúcha cantando...Não teria como não ficar bom! rs

Beijos

Marcelo Amorim disse...

hahaha... você não nega mesmo que é gaúcha, Vivi, bota bairrismo em tudo... mas bah!