quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Mais um festival - parte 2


Lucinha Lins (aqui, em foto de Antonio Guerreiro), protagonizou a maior vaia da história da música brasileira. Em 1981, a bela loira, então casada com Ivan Lins, ainda era conhecida apenas como backing vocal dos shows do marido, quando invariavelmente roubava a atenção do público masculino (eu mesmo sou testemunha ocular e cúmplice disso). Pois no Festival MPB Shell daquele ano, último da série que a TV Globo promoveu, a vitória da música "Purpurina", de Jerônimo Jardim, defendida por Lucinha, contrariou o abarrotado Maracanãzinho, que torcia em uníssono por "Planeta Água", de Guilherme Arantes. Além das vaias, atiravam nela abanadores de papelão. Ivan subiu ao palco e pegou na mão de Lucinha, enquanto esta tentava em vão repetir a canção vencedora. 

Os ensaios foram precários, como haveria de ser, mas muito animados, como também haveria de ser. Precários porque não éramos músicos ensaiando, mas sim uma turma de amigos se divertindo de um jeito pouco comum, participando de um festival de música. Acho que só eu e o Joel levamos aquilo a sério, ao nosso modo. Não lembro mais de quem chamamos para fazer parte do coro da "Encanto feminino", mas certamente estavam nele o autor da letra, Joel de Moraes, meu irmão Dario, minha namorada e vizinha na época, a Elaine e... mais dois ou três que não lembro mesmo. Compramos alguns instrumentos de percussão mais acessíveis e que pareciam fáceis de tocar.


Este vídeo é estranho mesmo, mostra um pouco a Lucinha Lins no palco da final do MPB Shell de 1981 tomando um banho de vaias e o parte da apresentação do Guilherme Arantes. No meio, surge um quizz não identificado. Como não encontrei outro registro da história, vai esse.

A vedete era um "pau de chuva", que dava um som lindo na hora dos vocais sem letra. Tínhamos também dois caxixis, além de outras quinquilharias meio improvisadas. A ideia era fazer um som que remetesse a ruidos da natureza, criando um clima meio natureba, mas principalmente ajudar o violão a preencher possíveis vazios sonoros. Montei a estrutura da música, definimos juntos os momentos em que o coro entrava e gostamos do que fomos capazes de conseguir, sem conhecimento musical. Mas é claro que a música era o que nos dava confiança. "Encanto feminino" tinha carisma. Melodia e letra contavam uma história envolvente e bonita. Era chegar na eliminatória e tentar dar o recado sem errar, porque tínhamos certeza de que nosso "produto" era bom.


Lula presenteia o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, com um legítimo pau de chuva, instrumento de percussão de origem indígena, provavelmente da região amazônica. Ao ser inclinado, pequenas miçangas no interior produzem um som que se assemelha ao de água corrente.

Com toda essa expectativa em torno da "Encanto feminino", o samba "No fundo do fundo" ficou em segundo plano. E bota segundo plano nisso. Meu violão se encarregaria de fazer a marcação principal, eu cantaria e o Joel, o Dario e mais um amigo que também não me recordo quem era ficariam incumbidos de fazer o vocal e algo o mais próximo que fosse de um batuque. Para isso, emprestamos um tamborim e, se não me engano, compramos um agogô., Batíamos naquilo como quem está chamando chuva, mas estava valendo, pois não tínhamos mesmo nenhuma experiência com samba. Mas o samba era bom, eu tinha feito em homenagem à Maria, como já contei aqui num post anterior, minha amiga que sambava lidamente e pela qual tive uma paixão não revelada. Também já contei aqui que essa música é uma das raras que sobreviveram às que fiz naquela época. Então, se a gente também não errasse, podia  até ser que o samba fosse para a final.


A década de 60 tinha ficado para trás, mas o início dos anos 80 parecia querer provar que o interesse por festivais de música brasileira permanecia vivo.

Eram duas eliminatórias em dois sábados seguidos, com 15 músicas cada. Participamos de ambas, na primeira com "Encanto feminino"; na segunda, com "No fundo do fundo". A final seria no terceiro sábado, reunindo as 6 classificadas de cada eliminatória, ou seja, 12 músicas disputando os três primeiros lugares, fora o prêmio de melhor intérprete, que incluia até as não classificadas. A "Encanto" foi muito bem recebida pela platéia. Ao final de todas as apresentações, recebemos a notícia da classificação para a final. A comemoração foi grande. No sábado seguinte, a "No fundo" não provocou tanto entusiasmo, mas foi elogiada. Por sugestão dos organizadores do evento, um grupo de samba que participava do festival se ofereceu para me ajudar na apresentação, fazendo a marcação do ritmo. Por um misto de timidez e soberba, agradeci mas declinei da oferta. Pura estupidez. Fiquei sabendo depois que os jurados lamentaram o fato do samba ser tão bom mas ter sido mal executado. O grupo de sambistas emplacou a música deles, um samba empolgante e impecavelmente conduzido. "No fundo" ficou no caminho. Mas estaríamos de volta no sábado seguinte para defender a "Encanto". A briga ia ser boa. Havia concorrentes com belas canções, músicos e compositores acostumados a frequentar festivais amadores. Para nós, tudo era lucro.


Em 1985, a TV Globo inventou um novo festival, que recebeu o pretensioso nome de Festival dos Festivais. A canção vencedora foi "Escrito nas estrelas", de Carlos Rennó e Arnaldo Black, defendida pela matogrossense Tetê Espindola. Com sua voz poderosa e timbre pra lá de incomum, Tetê emitia, sem saber, o canto do cisne dos grandes festivais.

7 comentários:

Maria disse...

Oi Marcelo!
É muito legal visitar o seu blog e lembrar de uma épocatão gostosa de nossasvidas.
Realmente, Encanto feminino emplacou, pois até pouco tempo atrás eu e a Eliana fcavamos cantando e relembramdo a letra.
Agora o samba que disse ter feito para mim...rsrsrs Eu não lembro...
bjs
Maria

Marcelo Amorim disse...

Que bom saber que vocês ainda cantam a "Encanto", Maria! Eu não faço isso mais faz tempo, embora lembre sempre dela com o maior carinho. Quanto ao samba, você não lembra porque eu nunca tinha contado sobre ele, senão teria ficado mais atenta. Um dia te mostro, ele ainda é bom, e estaria num repertório atual meu, sossegado. Beijo!

Francis disse...

Sempre gostei de Ney. Aquele disco dele cantando repertório de Ângela é o máximo. E eu assisti Lucinha naquela noite... Fiquei com a "Purpurina" (boazinha) a eleger Guilherme(panfletário). Tenho um poema novo no blog. Abç

Marcelo Amorim disse...

Francis, também tenho esse CD do Ney cantanto Angela Maria, é fantástico mesmo. Preciso ir no teu blog, ando muito corrido, muito mesmo, mas assim que tiver um tempo vou lá, que é sempre bom. Um abração

Francis disse...

Vá mesmo, veja Bibi, que os galos já foram comentados, mas não me lembro de ter falado essa história de outdoor? Esclareça. Vou lá... Te responder.Abç

Francis disse...

Boa tarde Marcelo e bom domingo. Parabéns pelas postagens sobre nossa música e cultura. Eu achei parecido com vc, o "Rei do Agreste", leia no Sol... Tenha uma ótima semana. Abç

Marcelo Amorim disse...

Obrigado, Francis. Vou ficar uns dias ausente daqui, acessando a internet e meus emails de forma precária, já que onde moro não tenho acesso à web e estou de férias, por suas semanas... passados esses dias, voltou ao normal e visito seu blog... um grande abraço, tenha ótimas festas de fim de ano por aí!