quinta-feira, 25 de março de 2010

Ensaio do festival

Foto de Jandoo (Flickr)

Ontem participei do ensaio para a apresentação no festival Samba do Compositor Paranaense. Noite chuvosa em Curitiba, o que fez o percurso que seria de 15 minutos entre o centro e o lugar marcado levar pelo menos o dobro de tempo que levaria. Mesmo com a chuva chatinha lá fomos nós, seis dos sete participantes da primeira edição do festival. O sétimo é da distante cidade de Paranavaí, por isso não compareceu e terá seu samba defendido pela banda formada para o evento.

O astral estava ótimo. Um povo muito à vontade, a fim de tocar, de fazer samba e de se divertir. Quatro percursionistas, um cavaquinho, um violão e um clarinetista. Cada um de duas ou três passadas pela música, para se familiarizar bem com o arranjo e combinar alguns detalhes. Em geral, gostei de todos os sambas que concorrem com o meu "Como disse o Cony" ao direito de fazer parte do CD oficial do festival. A seguir, dou uma palavrinha sobre cada um deles.

"Amor pagão", de Karla Díbia
Trata-se de um “quase-samba”, se é que se pode chamar assim essa bonita canção, que em alguns trechos lembra uma "quase-valsa", se é que se pode chamar assim essa bonita canção que, no fundo, é isso, uma bonita canção de amor. Vai dar uma quebrada no clima, o que considero muito positivo. A letra é romântica e a melodia muito inspirada, o que favorece a voz da Karla Díbia, de timbre muito agradável. Se tivéssemos prêmio para melhor cantor, eu apostaria nela para esta primeira edição.

"O sapateiro deu o nó", de Reinaldo Godinho
Entre todos, o Reinaldo Godinho é o concorrente com mais bagagem. É músico, produtor e arranjador, e já tem vários discos gravados, o primeiro deles foi lançado em 1978. No festival ele vai defender um samba no melhor estilo Moreira da Silva, com muita malandragem e malícia na letra, além de um suingue muito característico dos sambas-de-breque. Fora isso, o Reinaldo canta muito bem, mostra que sabe das coisas.

"Ordem, progresso e amor", de Alysson Siqueira
Eis aqui um samba de muito boa melodia e temática romântica incomum. Uma coisa que chama a atenção de cara é que a história narrada no samba é situada em Curitiba, o que é sempre interessante, já que a cidade não costuma ser associada ao samba. Também gostei muito da voz do Alysson Siqueira, timbre grave e ao mesmo tempo suave.

"Mar grande", de Gustavo Proença
O Mar Grande da música é o que separa a Ilha de Itaparica do continente, na Baía de Todos os Santos, perto de Salvador. Pelo que entendi do papo rápido que tive com o Gustavo Proença, autor do samba, é a terra dos pais dele. Este samba tem uma pegada bem tradicional, típica daqueles lindos sambas que imortalizaram a Clara Nunes. Muito bom de ouvir, muito segura a interpretação do Gustavo, a mistura deve empolgar a plateia.

"Futebol no céu", Cristiano Marques
Esse samba é, na minha opinião, o mais original de todos. Tanto na estrutura melódica quanto na poética da letra. Isso e o timbre do Cristiano Marques, que defenderá o samba, me fizeram lembrar do José Miguel Wisnik. Gostei muito, não é um samba pra levantar poeira, mas musicalmente foi o que mais me chamou a atenção.

"Minha ancestralidade", Willian Nazário
Eis um típico "sambão". Me parece ser o concorrente mais forte para a primeira apresentação, considerando que teremos público, portanto, um clima propício para a empolgação. O nome do samba diz tudo, ele versa sobre raízes culturais, negritude na veia. Como o autor mora distante de Curitiba, quem vai defender o samba vai ser a banda do festival, que tem tudo pra mandar bem.

Agora é torcer para que no domingo a gente consiga apresentar bem nossas músicas e a plateia presente saia de lá satisfeita com o que viu e ouviu.


"Agoniza mas não morre", do mestre Nelson Sargento, com o próprio e a sempre bem-vinda Teresa Cristina.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Festival Samba do Compositor Paranense: tô dentro!

Neste mês, tem início em Curtiba o festival "Samba do Compositor Paranaense". Como o nome diz, o projeto tem a intenção de revelar compositores que produzem sambas no Paraná. O concorrente deve ser paranaense de nascimento ou morar aqui, como é o meu caso. Serão nove apresentações até novembro, uma por mês, e em cada uma delas vão ser selecionados sete sambas. Destes sete, um será escolhido para fazer parte de um CD, e a escolha se dará por meio de votos do júri e da plateia presente.

Tive meu samba "Como disse o Cony" selecionado entre os que vão estar na primeira edição, que acontecerá no último domingo de março. Além de gostar muito desse samba, pela linguagem, bom humor, a cadência bem marcada, eu já tinha pronta uma gravação-guia dele. Vou defendê-lo acompanhado por um conjunto criado especialmente para o evento, composto por músicos renomados do samba paranaense, como Daniel Miranda, Felipe Cubas, Julião Boêmio, Léo Fé, Ricardo Salmazo, Vinicius Chamorro e Xandi da cuíca.

Não sou um sambista, mas gosto muito de samba e, vira e mexe, faço os meus. De qualquer forma, tô feliz de poder partipar dessa história. Primeiro, porque o festival vem em ótima hora, depois que resgatei minha paixão por compor músicas. Segundo, porque um evento desses é sempre uma ótima oportunidade para conhecer novos "amigos musicais", compositores, cantores, músicos, gente com quem posso vir a produzir coisas boas mais adiante. É isso aí, dia 28 estarei lá. Quando chegar mais perto, postarei aqui os detalhes da apresentação.

E se você quiser ouvir a gravação-guia da minha música classificada, o samba "Como disse o Cony", acesse www.myspace.com/marceloa



Jorge Aragão canta um dos melhores sambas que conheço, "Estrela de Madureira", de Acyr Pimentel e Cardoso.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Intervalo - Johnny Alf

Capa do LP lançado por Johnny Alf em 1965

Alfredo José da Silva nasceu no Rio de Janeiro em 1929. Perdeu o pai aos três anos de idade. Sua mãe o criou sozinha trabalhando como doméstica na casa de uma família na Tijuca. Seus estudos de piano começaram aos nove anos, com Geni Borges, amiga da família para a qual sua mãe trabalhava. Após o início na música erudita, começou a se interessar pela música popular, principalmente pelas trilhas sonoras do cinema norte-americano e por compositores como George Gershwin e Cole Porter. Uma amiga americana sugeriu o nome de Johnny Alf. Segundo o jornalista Ruy Castro (e quase todo o mundo da música), Johnny Alf foi o verdadeiro pai da Bossa Nova. Tom Jobim o apelidou de "Genialf". (informações retiradas da Wikipédia)


Caetano Veloso canta "Eu e a brisa"


Eu e a brisa
(Johnny Alf)

Ah, se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho


Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria

E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz

Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar

segunda-feira, 1 de março de 2010

Vai passar

Vista aérea do Vale do Anhangabaú durante o comício pró-Diretas Já, em abril de 1984. Eu estava lá. Foto Ag. Estado.

Os anos 1980 começavam sob o signo do protesto. Não mais o protesto velado ou aquele feito na clandestinidade. A sociedade civil finalmente começava a sair às ruas para reivindicar melhores condições de vida, de trabalho, para exigir a redemocratização do país. O período do chamado “milagre econômico” há muito ficara para trás, e os sinais de insatisfação com a miséria crescente, a inflação, o endividamento do país e a falta de liberdade política eram cada vez mais explicitados. Mas a repressão, embora tivesse sido bastante abrandada em relação ao que foram os anos de chumbo das décadas de 60 e 70, ainda arriscava umas recaídas.


"Inútil", com os paulistanos do Ultraje a Rigor. O rock nacional começava a despontar mostrando uma de suas principais características, a irreverência.

Foi nesse clima que atingi a maioridade e alcancei duas importantes vitórias: o trabalho e a faculdade. Depois de me ver livre de servir o exército, já que fui incluído no “excesso de contingente”, eu já podia voltar a conseguir um emprego regular. Traumatizado que estava pelo longo período sem trabalho e ciente da crise de desemprego pela qual passava o país, optei por ir atrás da estabilidade do serviço público. Comprei algumas apostilas em uma banca de jornais e estudei por uns dias as disciplinas que eu desconhecia à época, como noções de Direito e a legislação aplicada ao funcionalismo público. Prestei concurso no TRT e no TRE de São Paulo, sendo aprovado nos dois. Como fui chamado rapidamente pelo TRT foi lá que me apresentei, e assim passei a ser funcionário público federal, onde permaneci por 10 anos.


Marina Lima canta "Fulgás", dela e do irmão Antonio Cícero, de onde destaco o verso "você me abre seus braços e a gente faz um país".

Já dentro da Justiça do Trabalho, influenciado pelo meio e pelo fato de não precisar comprar livros, uma vez que vários dos meus colegas de trabalho estudavam Direito, acabei optando por prestar vestibular para esse curso. Acima de tudo, eu queria estudar algo que não incluísse matemática nem física, matérias que me infernizaram especialmente no colégio. Passei no vestibular do Mackenzie e fiz minha matrícula. Mas naquela manhã de domingo em que meu pai gritou para mim, eu debaixo do chuveiro, que meu nome saíra no jornal, na lista da PUC, desisti do Mackenzie. Eu queria estudar na PUC, uma universidade claramente de esquerda. Cinco anos antes, durante uma assembléia de estudantes, a PUC havia sido violentamente invadida pela polícia, comandada pelo então Secretário de Segurança Pública do Estado de São Paulo, coronel Erasmo Dias, que faleceu recentemente. Muitos estudantes apanharam, tiveram a pele queimada por bombas de gás lacrimogênio, outros foram levados para o DEOPS (Delegacia Estadual de Ordem Política e Social) onde vários foram fichados e espancados. Além desse perfil da universidade me atrair, o curso de Direito da PUC rivalizava em qualidade com o da USP, o do Largo São Francisco.


Fafá de Belém em uma das músicas que foram apropriadas pelo movimento Diretas-Já, "Menestrel das Alagoas", de Milton Nascimento e Fernando Brant. O "menestrel" em questão era Teotônio Vilela, senador que pertencia à ARENA, partido que dava sustentação política ao governo militar. No entanto, em 1979 Teotônio passou para o MDB, tonando-se um dos artífices do início da campanha pela volta das eleições diretas para presidente da República. Morreu de câncer em 1983. 

A redemocratização do país era um processo irreversível, que culminaria com a campanha Diretas Já, lançada em 1983. Estive presente em dois momentos dessa história. O primeiro foi em uma passeata de “bate-panelas”, que saiu da PUC e foi até a Praça da Sé. Durante o trajeto batemos tampas de panelas e gritamos palavras de ordem pelo fim da ditadura. Estive também na maior manifestação pública da história do Brasil, o comício das Diretas Já no Vale do Anhangabaú, que aconteceu em 16 de abril de 1984. Um milhão e meio de pessoas presentes tendo como mestre de cerimônias o locutor esportivo Osmar Santos. Sucessivamente, iam tomando a palavra políticos, artistas e esportistas. Ulysses Guimarães, Brizola, Tancredo Neves, Lula, Fernando Henrique Cardoso, o jogador de futebol Sócrates, Chico Buarque, entre outros. Obedecendo à convocação dos organizadores, eu e meus amigos da Justiça do Trabalho vestimos camiseta amarela, apesar das ameaças que circulavam pelos corredores do TRT. Dito e feito, dias depois vários de nós foram transferidos compulsoriamente para cidades indesejadas, como Cubatão, que era então uma das mais poluídas do mundo. Por algum motivo, escapei da represália e permaneci em São Paulo. As eleições diretas não passaram pelo Congresso. Eleito no Colégio Eleitoral, Tancredo Neves morreu antes de assumir. O cargo de presidente da República caiu então no colo do vice-presidente na chapa, o senador José Sarney, que até pouco tempo atrás era do partido da situação, a ARENA. Ou seja, um verdadeiro samba do crioulo doido.


"Vai passar", de Francis Hime e Chico Buarque. Empunhando o estandarte de uma fictícia escola de samba a que chamou de "Sanatório Geral" (que na verdade era o próprio Brasil), Chico, mais uma vez, conseguiu sintetizar toda uma época em alguns versos. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Intervalo - Ritchie

Ritchie, em foto sem crédito

Batizado Richard David Court, Ritchie nasceu na Inglaterra. Por ser filho de militar morou em diversos países, até conhecer alguns brasileiros, dentre eles os integrantes dos Mutantes, que o convenceram a vir para cá, onde se fixou. Depois de dar aulas de inglês para nomes como Paulo Moura, Egberto Gismont e Gal Costa, participou de várias bandas de rock progressivo. Na A Barca do Sol era flautista e vocalista. Na Vímana, ao lado de Lulu Santos e Lobão, chegou a gravar um compacto pela Som Livre, que foi engavetado porque a gravadora considerou que não havia público para rock no Brasil. Em 1983, lança o LP "Vôo de Coração", que vende mais de 1 milhão de cópias, tudo por culpa, quero dizer, por conta do megasucesso "Menina veneno", a música mais executada em todo o país naquele ano, à exaustão. Ritchie nunca deixou o mundo da música, mas o sucesso estrondoso do primeiro disco jamais chegou perto de se repetir. Em 2009 lançou pelo seu próprio selo o trabalho "Ritchie - Outra Vez", o primeiro Blu-ray musical a ser produzido, gravado, masterizado e fabricado no Brasil.


“Menina veneno”, de Ritchie e Bernardo Vilhena

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O espaço da vanguarda

Um velho porão localizado na Rua Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiros, agitou a cena cultural da cidade de São Paulo na primeira metade da década de 1980. Espaço de vanguarda e efervescência cultural, o teatro Lira Paulistana era ao mesmo tempo palco para música, teatro, cinema, artes plásticas, literatura e jornalismo. Por ali passaram nomes como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Suzana Salles, Cida Moreira, Laura Finocchiaro, os grupos Rumo (com Ná Ozzetti e Paulo Tatit), Língua de Trapo, Premeditando o Breque, Ultraje a Rigor, entre outros artistas que protagonizaram um dos mais estimulantes movimentos culturais experimentados pela capital paulista, a chamada "vanguarda paulistana".


O genial Itamar Assumpção canta "Prezadíssimos ouvintes", dele e de Domingos Pellegrini

Infelizmente, não cheguei a freqüentar o Lira Paulistana. Mas o professor de literatura do cursinho pré-vestibular do instituto politécnico, onde eu estudava, chamou minha atenção para os grupos Premeditando o Breque e Língua de Trapo. Ele assistiu a um show deles no Centro Cultural Vergueiro e tinha adorado o que considerava ser uma "nova proposta" dentro da música brasileira. Fui conferir e por um bom tempo acompanhei a trajetória desses grupos. Tanto o Premeditando o Breque, posteriormente batizado Premê, quanto o Língua de Trapo, misturavam música e humor, tudo com muita irreverência. O Premê era musicalmente bem mais refinado, já o Língua adotava uma linha mais escrachada. Na verdade, ambos são legítimos herdeiros do grande Adoniran Barbosa e do lendário grupo Joelho de Porco.


Como não encontrei nenhum vídeo bom do Premê, segue este recente em que os ótimos Mário Manga e Wandy Doratiotto cantam "Brigando na lua", samba-de-breque que conquistou o segundo lugar no 1º Festival Universitário de Música Popular Brasileira, realizado em 1979.

Mesmo não tendo ido ao Lira, curti muito a maioria daqueles artistas em disco. Aliás, o Lira Paulistana era também um selo, a partir do qual muitos dos artistas que se apresentavam no teatro tiveram a oportunidade de estrear em disco de forma independente. Lançar um LP por uma gravadora comercial e distribuir o disco no mercado estava fora de cogitação para aquele povo, que fazia um trabalho tão original quanto distante dos interesses da indústria fonográfica. Mais tarde tive um contato pessoal com a Ná Ozzetti em uma festa na casa de um amigo em comum. O saudoso Plínio Chaves tinha sido sócio do Lira. Foi também um dos primeiros a incentivar a carreira solo desta que é uma das melhores cantoras do país, tanto pelo timbre da voz quanto pela técnica apurada. Não consegui trocar muitas palavras com ela. Além da Ná ser, à época, muito tímida, naquela noite comi um bolo cuja receita levava um ingrediente que eu nunca tinha experimentado antes. O troço bateu tão forte que passei a maior parte da festa dormindo no chão da sala.


Neste vídeo, vemos uma interessante fusão de um trecho de uma apresentação do Grupo Rumo em 1984 com outra feita 20 anos mais tarde. A música é a "Falta alguma coisa", de Zécarlos Ribeiro, com destaque para a voz impecável de Ná Ozzetti. 

Nota: o primeiro bloco deste texto foi extraído do Catraca Livre, da Folha online

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Intervalo - É Carnaval

Ala das Baianas da Império Serrano. Foto sem crédito.

Eis que hoje começa pra valer o Carnaval 2010. Já vai ter desfile em Sampa à noite, tomara que São Pedro pegue leve com a cidade. E amanhã, no Rio, a Império Serrano, escola do meu amigo e parceiro Wilson das Neves, é a segunda a entrar na avenida para tentar voltar ao Grupo Especial. Torço por ele. Embalado pelos belos sambas do grande Das Neves, desejo a você um ótimo Carnaval. “Ô sorte!”


Wilson das Neves canta "Grande Hotel", samba que ele fez em parceria com Chico Buarque

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Intervalo - A lua e ela

Foto de Lina Faria

Melodia sentimental
Heitor Villa-Lobos e Dora Vasconcelos

Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que surge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo ao meu sonhar

As asas da noite que surgem
Que correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar seu calor ao luar

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir meu amor e sonhar


"A voz é minha, mora em mim, mas... é uma expressão de Deus... é uma fagulhinha, uma bobagem". Trecho do documentário "Maria Bethânia - Música é perfume", de 2005, dirigido por Georges Gachot.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Uma canção inacabada - final


Parado em frente ao portão, o que ele mais viu foram pedaços de jornal, folhas secas, folhetos e envelopes empoeirados de correspondência comercial, tudo levado pelo vento para dentro da ampla garagem. Estava claro que não era de hoje que ninguém transitava por alí. Mesmo assim, ele arriscou a campainha duas vezes. Não demorou e uma movimentação qualquer na casa vizinha à direita chamou sua atenção. De fato, uma mulher apareceu entre as grades do outro portão e perguntou se ele era da família. Explicado que não, ela o convidou a entrar. Enquanto servia um café, ela disse que eles tinham viajado para o interior, para a casa de algum parente, iam voltar só na outra semana. Disse também que achou uma judiação, uma moça linda e com a vida toda pela frente acabar desse jeito, eles podiam ficar dez anos fora que não iam conseguir escapar da tristeza, você sabe como foi, não sabe? Não, ele não sabia, e teve que dizer também para a vizinha que estavam sem trocar palavras há quase duas semanas, que ela pediu aquilo porque o ex-namorado vivia indo na casa dela todos os dias, ligando toda hora, etc., etc., e que ele - não o ex, mas o que agora aceitava uma segunda xícara de café - tinha concordado, desde que aquilo não se estendesse muito, desde que eles retomassem logo o que parecia tão perfeito. Quer saber como foi? perguntou a vizinha, ao que ele respondeu que sim, que seria bom mesmo entender de vez aquela história ainda estranha, que ainda parecia não ser verdadeira, mesmo sendo.


Aqui, na cena final do filme "Noel, poeta da Vila", Wilson das Neves canta "Último desejo", de Noel Rosa. Com essa música, feita em parceria com Vadico, Noel se despedia de Ceci, a "dama do cabaré", sua grande paixão. Das mãos de Vadico, Ceci recebeu a letra do samba e a notícia da morte de Noel.

No sábado retrasado, detalhou a vizinha, havia uma festa, o aniversário de uma amiga da Rô, a festa ia ser num bar lá perto daquela faculdade, sabe qual? Então, a amiga dela convidou, mas a Rô não queria ir, andava meio amuada naquela semana, mas o ex-namorado fez plantão aqui na frente da casa dela, veio umas três ou quatro vezes, insistiu que a levaria, pediu, implorou pra que ela deixasse que ele a acompanhasse ao bar, já que eram amigos em comum da aniversariante e ele também tinha sido convidado, mas só iria se ela, a Rô, também fosse, e ele jurava que ia só dar uma carona pra ela, que depois, se ela quisesse, ele poderia também deixá-la em casa na volta, sem nada de mais, ele tinha até prometido pra aniversariante que levaria a Rô na festa, então ia ficar muito chato se ela não aceitasse a carona, só isso, uma carona de um amigo, mais nada.


Há quem considere esta a mais bela canção de todos os tempos. Uma das mais, sem dúvida é. "Everytime you say goodbye", de Cole Porter, com Simply Red.

Será que foi nesse? Não, aqui não tem semáforo. Talvez naquele outro. Acho que não, esse não parece ser um cruzamento muito movimentado. Ou teria sido nesse em que o ônibus parou agora? Peraí, onde fica a tal faculdade perto do bar? Já iniciando a volta para o outro lado da cidade, os postes de luz acesos, os faróis dos carros acesos, a noite de domingo começando a ir para a cama, ele tentava reconstruiu a cena que não queria ver. Num desses cruzamentos, o carro do ex-namorado vai atravessar. Era noite de sábado, quando aumenta o perigo de acidentes e assaltos. Não dá nem para bobear e parar no semáforo vermelho, melhor diminuir a velocidade, olhar rápido para os dois lados e passar. Talvez tenha sido naquele cruzamento ali. O ex-namorado não quis esperar o verde, preferiu acelerar, àquela hora da madrugada já viu. Um clarão e a batida seca e violenta. O carro que vinha na transversal entrou em cheio na porta do lado do passageiro, bem onde estava a Rô. Alguns dias em coma no hospital, a família desesperada, mas ainda acreditando, afinal, ela não tinha nenhum machucado visível, nada. Na aparência, o ex-namorado havia levado a pior, um braço quebrado e vários hematomas. Mas ela teve ferimentos internos graves, até que uma hemorragia irreversível fechou para sempre seus olhos. E foi em um desses cruzamentos.

“E se eu te seguir por ruas / de rastros desiguais / me perder no fim do dia / e anoitecer demais / conta como achar teus olhos / se nem mesmo sei dos meus / se passou da hora / e não dá mais pra retornar”

Nota: a parte que eu sentia que faltava na canção, que incluiu os versos acima, foi escrita meses após o ocorrido, e veio quase sem transpiração. Estranho reconhecer na letra que o que tinha sido feito para cantar uma paixão juvenil e platônica, passou a fazer ainda mais sentido depois.


"Casa vazia", de Flávio Venturini e Márcio Borges, com Flávio Venturini e Paulinho Moska.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Uma canção inacabada - parte 2


Gaguejando um pouco, envergonhado um pouco, ele cantou para uma encantada Rosângela as duas novas músicas que tinha acabado de compor. Na verdade, havia mais uma, que ele não quis mostrar nem chegou a comentar que existia, apesar de considerá-la a melhor das três. Mas era uma canção que ainda estava terminada. Ou melhor, a canção parecia não querer se fechar ainda. Se bem que os raros amigos que já tinham ouvido a parte pronta até então juravam que não faltava mais nada. Mas ele não se convencia disso, sentia que aquela música ainda precisava de algo mais, só não sabia o que. Uma nova estrofe? Um verso ali? Quem sabe um refrão? Por enquanto ele decidiu deixá-la de lado, e só quando sentisse que ela estava de fato acabada, aí sim ele chamaria de novo a Rô para que ela conhecesse a melhor das três canções, aquela que ele tinha começado a fazer logo que se deu conta de que estava apaixonado por aquela moça que ele achava que não era para ele. E ele ainda achava isso, mas o que importava agora era que as duas músicas que ele fez inspiradas naquela deliciosa noite de Carnaval tinham dado mais do que certo. Naquela mesma tarde, um tantinho menos tenso daquele encontro na arquibancada vazia, ele ouviu a gata, já há muito despida de sua fantasia, prometer que ia terminar o namoro que a fazia infeliz.

“E como é que fica? / me diga como o meu caminho / pode cruzar o teu
se entrelaçar ao teu / e se perder no teu caminho / tuas curvas, teus sinais
me diga mais / onde é seu fim / vem, diz pra mim”

A tarde do sábado da semana seguinte estava só começando quando ele saltou do ônibus e foi até o primeiro orelhão que viu naquela rua desconhecida. Tinha apenas uma ficha e um papel com o telefone da casa dela, que sem acreditar atendeu e riu, e riu muito. Sem avisar, ele havia tomado os dois ônibus que levavam ao nome do bairro dela, a única coisa que ele sabia, e arriscado um ponto qualquer pra descer. Do outro lado da linha ela se esforçava para retomar o fôlego e tentar saber que diabo de rua era aquela de onde ele estava telefonando. Depois de se informar com o primeiro que viu ali por perto, ele pediu que ela fosse rápida, porque a ficha ia cair a qualquer momento. Se cair me liga a cobrar, quase gritou ela. Mas não foi preciso, ele estava a apenas duas quadras do riso incontrolável de sua amada.


A atriz Vera Zimmerman foi a musa inspiradora de Caetano Veloso na música "Vera gata", que ele canta neste vídeo de 1981, acompanhado pela Outra Banda da Terra.

A campainha mal soou e ela surgiu. Selaram o início do namoro com um longo abraço e beijo ali mesmo, no portão, para alegria dos pais dela, que sem que percebessem espiavam pela fresta da cortina da sala, e que viam naquele rapaz que fazia músicas a chance da filha voltar a ser leve como sempre fora. Um sacolejo mais forte do ônibus devolveu o rapaz que fazia músicas àquele final de domingo cinzento. Não havia mais ninguém na condução além dele, do motorista e do cobrador. Mais três paradas e o ônibus chegaria ao seu longínquo ponto final. Ele foi caminhando por calçadas praticamente desertas, como pareciam ficar todas as calçadas ao final dos domingos, naquela hora em que a maioria das pessoas começa a desalegrar o rosto. Ou vai ver que não, talvez ele não estivesse conseguindo enxergar os rostos que passavam por ele, que lavavam carros, que regavam jardins, que atendiam o entregador de pizza no portão, tamanha era a angústia que apertava mais e mais o peito, a cada passo que a casa dela dava na sua direção.

“E como é que fica? / me ensina como os meus cabelos
podem cobrir os teus / se embaraçar aos teus
se perfumar dos teus cabelos / dessas teias, espirais / me ensina mais 
onde é a raiz / vai, então me diz”

(continua)