sexta-feira, 19 de junho de 2009

De "Uma brasa, mora" a Metais em Brasa



Em 1965 estreia o programa Jovem Guarda na TV Record

A música sempre esteve presente com destaque na minha infância. Meus pais não tocavam instrumento algum, mas ouviam muita música, e música popular no exato sentido do termo. Minha mãe era fã do pessoal da Jovem Guarda. Ainda solteira, chegou a freqüentar auditórios de programas de TV onde esses cantores se apresentavam. Aliás, a TV da década de 60 era riquíssima em programas musicais de auditório. Discos da Martinha, Wanderléa, Demétrius, Renato e seus Blue Caps e, claro, do Roberto Carlos, entre outros, não faltavam na nossa vitrola.



Uma legítima vitrola Telefunken. Era uma assim que havia em casa.

O prato girava em 33, 45 ou 78 RPM, coisa essencial numa época em que era comum ouvir música de "bolachas" lançadas em décadas anteriores

A vitrola de casa era um caso a parte. Tínhamos uma Telefunken enorme de madeira, que dividia com o televisor da mesma extinta marca alemã as honras de principal móvel da sala. Sim, a vitrola tinha aquele mecanismo que permitia empilhar 2, 3, 4 LPs uns sobre os outros. Assim que a agulha chegava ao final do disco, o braço do aparelho voltava para a direita e dava um misterioso comando que fazia cair o LP que estava em cima. Esse processo, obviamente, enchia os LPs dos chiados e riscos tão característicos nos discos de vinil.


Um dos primeiros LPs que ouvi e ouvi muito. Do maestro francês Franck Pourcel, que ao longo da carreira lançou 120 álbus e é considerado por muitos o criador da chamada "música orquestrada". Morreu em 2oo2, aos 89 anos

Chiados e riscos, aliás, eram bem mais perceptíveis quando na vitrola giravam os LPs preferidos por meu pai. Dono de um vozeirão ao estilo de um Nelson Gonçalves (aliás, por mais heresia que isso possa soar, acho a voz do meu pai melhor que a do Nelson), ele sempre gostou muito de músicas orquestradas, que como o nome indica, nada mais são do que temas populares executados por naipes de orquestra. Acho que isso se deve ao fato dele gostar muito de cantar. A música orquestrada, então, funcionava na época como um playback para ele soltar a voz, numa espécie de embrião do karaokê. Assim, discos de Lafayette, tecladista – ou melhor, “organista” – responsável por boa parte da sonoridade da Jovem Guarda, de Franck Pourcel, do trompetista americano Henry Jerome e seus "Metais em Brasa" e de Paul Mauriat se revezavam no prato giratório da Telefunken com seus temas românticos quase sempre extraídos de trilhas de filmes idem, além de versões melodiosas de sucessos internacionais e algumas faixas próprias. Ah, o infalível Ray Conniff também comparecia com seus arranjos já muito característicos. Apesar de eu ter à época apenas entre 4 e 5 anos de idade, lembro bem que gostava muito de ouvir o som que saía dos discos do Franck Pourcel.

Demorou um bocado pra que eu começasse a achar essa união melosa de piano e cordas uma tremenda xaropada. Mas o gosto pela melodia ficou enraizado em mim de um jeito que por muito tempo praticamente não dei ouvidos às coisas que soassem preferencialmente percussivas, rítmicas, viscerais na música.

8 comentários:

Anônimo disse...

Marcelo,

Não sou rato de blogs mas o teu - por te conhecer um pouco e gostar do que vi - vou querer entrar e palpitar, falar bobagens, hahaha...!!!
Parabéns pela iniciativa e que tudo se realize no ano que vai nascer... muito dinheiro no bolso, etc etc etc...!
Meu comentário é de velho babão. Desse tempo onde os discos eram de vinil e se escutavam nas vitrolas, eu me lembro de um dia frio de começo de julho de 1967 estar abrindo com todo o cuidado o LP Sargeant Peppers Lonely Heart Club Band sem saber que estávamos desvirginando o álbum do século XX, segundo os maiores críticos de música da imprensa especializada de todo o mundo!
Estamos falando simplesmente dos Beatles!!!
Nem mesmo nossos filhos irão fazer o mesmo e por duas singelas razões: primeiro porque nem eles estarão vivos para abrir o CD do século XXI ou o que for lá pelos idos do ano 2101 e - principalmente - porque não haverá quem premiar pela genialidade, pela criatividade, pelo talento desses DJs que programam os sons eletrônicos dos SHTÁCK... SHTUNK... SHTÁCK... SHTUNK... SHTÁCK... SHTUNK... SHTÁCK... SHTUNK... SHTÁCK... SHTUNK... pobres de tudo, principalmente de espirito. Que pena que eu tenho dessa "galera" (detesto a palavra, mas ela aqui é oportuna!) que não tem muito para se emocionar como tivemos nós que pudemos viver as maiores mudanças culturais em todas as artes, ciências, tecnologia de todos os tempos que aconteceram quase todas nos anos 60. Até mesmo a internet surgiu nos anos 60, no MIT (pouca gente sabe disso!).
Sucesso procê, Marcelo.
Até qualquer dia, hora, ou eleição!

chicão
(Me sinto honrado por estar na tua lista!)

(l' excessive) disse...

tambem eu me sinto honrada com o convite.
marquei como "seguir este blog"
Adorei a vitrola Telefunken
abraco e sucesso

Carlos Lopes disse...

Obrigado pela visita. Blog novo!!! Promete. UM abraço.

Marcelo Amorim disse...

Chicão, seu conhecimento sobre música e sobre rádio será muito valioso pra enriquecer este espaço. Venha sempre que puder.

Liz, você é muito bem-vinda, tanto pela pessoa que já sei que é quanto pela qualidade das coisas que faz.

Carlos, é um privilégio ter a companhia de um poeta de além-mar. Um privilégio pra lá de inspirador.

Renato Castanheira disse...

Minha vó tinha as duas telefunken...
a TV e a vitrola.

Já tá nos favoritos, Marcelo. Até o próximo almoço vegetariano!

Marcelo Amorim disse...

Pois é, Renato, se a gente soubesse que aqueles trambolhos iam valer a grana que valem hoje nas lojas de antiguidades... Seja bem-vindo, cara! Ao blog e ao próximo almoço vegetariano ;-)

Rubens Mendonça disse...

Olá, Marcelo.
Cheguei aqui graças à vitrola Telefunken e me deparei com um texto excelente, parabéns.
Meu pai também tinha uma dessas na sala e vivia ouvindo The Platters e cia ltda, o som é ótimo. Hoje a vitrola ainda está conosco mas vamos nos desfazer dela por falta de espaço. Inclusive ontem veio um possível comprador, depois te conto.
Também sou blogueiro e escrevo sobre cultura, idéias, lembranças e o que mais sair da "caneta". Quando quiser conhecer o blog será um privilégio: http://blog.factivel.com.br
Parabéns.
Abraços

Marcelo Amorim disse...

Rubens, é uma alegria pra mim que você tenha vindo aqui e gostado do que viu. Quer dizer que está vendendo uma Telefunkona daquelas? Puxa, eu adoraria manusear uma que estivesse funcionando ainda, ouvir um vinilzão dos bons nela. Aliás, tínhamos um LP dos Platters lá em casa, esqueci de citá-lo no post. Depois vou dar uma volta pelo seu blog, faço questão de conhecer seu espaço. Um grande abraço.